fevereiro 28, 2011

Public Image Limited "USLS 1"

Terrorismos e outras formas de arte

Viajamos por decisões que a tecnologia tomou por nós. Deslocamos as pedras sem esperar pelos rastejantes que nelas se ocultam. Quem descola as pedras onde nos escondemos? Olhamos em volta de ouvidos muito abertos e deixamos cair os ombros. Há quem rasteja à volta dos nossos pés e viva em pedestais de quilates que não sabemos sequer imaginar. Dizem-nos as regalias das austeridades e do esforço comum. Ensinam-nos palavras compridas e se procurarmos em todas as bibliotecas de Alexandria, não encontramos significados, só poeira que insiste em não assentar. Somos informados de cada morte, de cada disparo, de cada edifício que se desfaz por uma natureza cada vez mais artificial. As canções, já nem os nomes decoramos. As senhoras e os senhores que nos matam todos os dias também têm filhos e filhas e animais de estimação. São senhoras e senhores que matam os seus próprios filhos, que violam as suas próprias filhas. São senhoras e senhores que convidam outras senhoras e senhores para jantar os seus próprios animais de estimação em fricassés complicados. Somos proibidos de decidir. Não conhecemos o dia de amanhã. Sabemos apenas que cada avião irá aterrar se a decisão de alguma senhora ou senhor coincidir com o horário previsto. Senão, o capricho chamar-se-á atentado.

fevereiro 27, 2011

Bohren & der Club of Gore "Prowler"

O café fica para mais tarde

Na teoria esta escrita devia ser nocturna, da mesma maneira que acendi um fósforo com o isqueiro à beira da mão direita. Como este detalhe que seria desenfreado se a pressa me manobrasse a tarde. E não manobra. Insisto em fumar estes cigarros de puta como se quisesse sentir alguma coisa nova. Perdi o hábito de fumar cigarros, trocando-o por outro mais subtil, e lá voltei, mesmo que a espaços, nesta bizarria de cigarros finíssimos no lugar de Lucky´s. Só gosto de cigarros de filtro branco. Aquele castanho no mesmíssimo sítio onde é suposto fechar os lábios mexe-me os nervos. Ou sobretudo a estética que me define cada prazer. Gosto dos primeiros instantes de um cigarro mal apagado no cinzeiro. Depois, enerva-me. Gosto da lentidão do primeiro fumo. Gosto desta penumbra. Não gosta da palavra. O p não deixa filtrar essa claridade aveludada que se entranha nesta calma escurecida. Há tanta nuance em cada gesto ou memória. E esta tendência inocente de levar a memória ao passado, quando afinal ela distingue o agora e o a seguir. Se estivesse no meu bairro, nessa língua de espaço onde sei que pertenço, estaria sentado à janela, num poleiro de estrangeirismo, embalado por um disco e um cigarro. Embalado por um céu e uma rua. Na oscilação de ser e querer.

fevereiro 26, 2011

All About Eve "Phased"



Acreditei nesse depois em horas mortas, onde vaguear pelo chão coberto de almofadas é prolongar uma droga sem o auxílio de agulhas ou cartão de crédito. Sei o que devo sentir ao te olhar por entre todos os adereços que me possa ocorrer. E desejar que a noite não termine é tornar-me religioso, mesmo se todas as profecias se rasguem em sacrilégios dignos de orgias descomunais, e reis sejam depostos pela simples razão de não amarem. Sinto o perigo das grandes tempestades, dos ventos que atiçam a matilha. E na doçura dos teus lábios, saber o caminho para a floresta de onde não se regressa.

The Durutti Column "Missing Boy"

Algures num capítulo

Nesse canal de barcaças em entardecer lento, a luz tem as cores que sempre li, aquelas cores que alguém me soube explicar, não a mim, mas a quem se dignasse pegar no livro e entender todas aquelas tardes e referências tardias, todas as horas em que sentado sobre a relva à sombra de choupos, mastigava a sanduiche e procurava os destinos dessas barcaças, sempre à espera que me gritassem um lugar vago para mim. Essas páginas amareladas ainda lá estão, disponíveis como senhoras idosas procurando o ainda amor dos seus dias. Mas a relva já se acastanhou. A sanduíche jaz, ressequida e mordida por algum roedor. As barcaças rareiam. Algures, sentados a uma mesa manca, ou talvez só empenada, em quatro copos escurecidos pelo vinho, os barqueiros lidam com a falta. Olham sem se olhar. Evitam gritar para o balcão, como se a culpa os consumisse em vagas de remorso. Os dedos continuam a amarelecer dos cigarros mal dormidos. Aqui ainda não existem proibições. Apenas viver mantém-se proibido. E de olhos no chão ou na manga larga e desfiada, os barqueiros repetem-se mudos a ousadia de terem nascido e procurado num canal a profecia de se sentirem vivos. Nos ombros e nos pescoços já sentem o peso de envelhecer. Os nós dos dedos perderam o vermelho vivo. As articulações deixaram a dor da corrente. Ainda os sei ver, lentamente descendo o canal, sanduíche esquecida na mão, dentes quietos à passagem desse bilhete para uma fantasia que fiz crescer tanto. Tarde, num perfeito meio a caminho da hora de jantar, quando as luzes acordam pelo safanão da electricidade, ainda me encosto ao pequeno muro e ao longe procuro algo que desça lentamente o canal. Nem que seja um livro rasgado.

fevereiro 25, 2011

Eu corro

Na eventualidade de um dia de Verão antes do Verão, existe a ponte e o azul do outro lado, uma ponte, longa de vários quilómetros, rumo ao sul, apenas porque existe um azul mais azul. E que se descubra vento. E um lugar escondido para muitas pausas. Que se tirem as canções das gavetas e se oiçam com os ouvidos de hoje pincelados por ontem. Gosto de prazeres culpados. Fazem-me sorrir e deixam-me sabores azuis e laranjas. Recorro a esses prazeres sempre que preciso de me sentir vivo. Ou pelo menos, durante as travessias de pontes, onde cada quilómetro nunca me avisa para o próximo.

fevereiro 22, 2011

SMPL

Apetece-me estar aí. Sentado num degrau de uma dessas casas de bonecas. De t-shirt, uma rebelde, de ténis envelhecidos, talvez por me fazer sentir velho, de cigarro e copo na mão. Entregue a esse remoinho de fim de tarde, nunca fim de dia, gente esvoaçante num fio condutor ziguezagueante. Quero estar aí nas mesmas atitudes que são incompatíveis, voyeur e actor, num arremesso de frases feitas desde que feitas por mim. E no copo nada mais que chá. E no cigarro, o fumo que preciso como argumento. E na voz a rouquidão de noites mal dormidas sem me empaturrarem a decisão. Sei que tenho de escrever filmes, peças de teatro onde entro sem me mostrar, sei a hora de dizer adeus desde que venha alguém comigo, sei despertar e dizer os bons dias em todos os idiomas. E se não souber, o meu sorriso falará as palavras estranhas que não sei pronunciar. E sei que devo um beijo antes de fechar os olhos. Sei e esqueço-o demasiadas vezes. Não me posso esquecer. Posso depender de isso. Sei que dependo, por muitas novelas solitárias que insisto em escrever e vender a revistas de leitura fugaz. Forram caixotes de lixo com elas e mesmo assim tenho-lhes devoção. Revestem o sangue de cor dois tons abaixo, que produzo. E afinal, esse desejo infame e insano de escrever canções é o único que nunca sorverei sedento, multiplicado por mil e decorando cada quarto de motel em capela sistina. Apetece-me e apenas consigo acender o cigarro e sentir-me longe.

Basta-me a primeira letra, talvez por ser quase a última

As coisas são estranhas, quando não as chamamos pelos nomes, se nomes têm, ou se decidimos olhá-las através do ângulo que não as favorecem. Ângulos e nomes, a geometria de uma rua vista de cima, cada pessoa passa apenas por sua livre vontade, cada bar aceita cada voluntário já de copo na mão. São 5 horas da tarde e já se vive nessa rua com as árvores suficientes para se chamar amigavelmente, bairro. O vagar veste-se de cores berrantes, sentem-se terraços ainda vazios, os risos parecem-se com sorrisos e a tarde tem o mesmo valor da noite. Existem sítios assim. Sei descobri-los. Falta-me o quase para os adoptar como meus.

Sam Taylor-Wood "I´m in love with a german film star"

Estou apaixonado por uma estrela de cinema alemã

No apetite sincero de uma manhã onde gosto de encontrar um cinzento que brilhe no outro lugar da minha cama, estendo a mão e sinto uma pele que faz da minha um brinquedo. Não evito situar-me neste vértice de idealismo, quando ser eu me precipita a histórias e linhas de ciúme, coxas que me pedem atenção e toda a corrente de eventos que me separam do limite. Sou particular neste estado de coisas, tanto quanto me seja possível preservar os meus segredos dentro da porta do meu quarto, meu e teu, meu e de quem for, na certeza de aqui tudo se manter, até a probabilidade de me mostrar todo eu, esse percalço onde me refugio sempre que desejo e concretizo as fantasias que me fazem filme e realizador. Acho que existo em sedas para me sentir veludo e tocar em tudo com dedos de egoísmo. Mais que outro verbo, adoro esta faculdade. E nela, chover e desaguar enxuto.

fevereiro 20, 2011

Doçura à base de farinha

Metia no bolso o pacote de manteiga e seguia para o pão quente. Depois sentava-se no degrau, abria o pacote da manteiga com cuidado, passava o canivete e repassava-o no pão aberto com o miolo ainda a fumegar. Lambia os dedos e a lâmina da faca de bolso, recostava-se à porta fechada e dava a primeira dentada fechando os olhos em busca desse sabor que a vida endurecida lhe escapava. Era o tempo em que a felicidade ainda tinha momentos.

A primeira à direita antes da esquina

Mas voltando à vaca fria, enfim morna, pois em mim estas latitudes não esfriam, que dizer da barbearia e dos vizinhos do lado. Que estão muito bem e se recomendam, por oposição a uma mentira que se deseja fresca e de cânones confirmados. Saiam de olhos ensonados e mãos arrefecidas pela friagem, ou então isso era na cidade grande. Confundi-me no mapa. Para norte então. Saiam sim, todos os dias, mas de mãos nos bolsos, com a confiança de uma míngua de alternativas, cientes do lugar de cada um e para o que estavam. Era simples. Um era barbeiro, outro trabalhava nos correios, outro ainda caixeiro numa loja de fazendas. E o primo que ainda era guarda-nocturno e zelava pelo sono de todos. E o oficial do exército que andava de vespa, a senhora do quiosque versada em política, um ou outro bêbado de estimação e o guarda-livros de cigarro aceso e rádio a pilhas no bolso do casaco. Muito mais que um par de vizinhos, menos que uma cidade inteira, a suficiência de um cais onde aportavam barcos de pesca e o vai e vem de tudo um pouco, onde pouco era não querer fazer parte.

Foi e volta a ser

Sobejam-me criações alheias, pedidos de casamento fúteis e ultrapassados, dogmas perdidos à beira-rio, leito de cais assoberbados, fiéis a pastos de contentores e cantores gastos de um punk antigo. As coisas já não são como eram. Mistificaram-se para o lado errado da rua. Estava à janela, depois varanda, e via-as passar de saia curta e cabelos ventosos. E era a rua, aquele bocado de bairro, segredo de cidade menor que um fósforo, afinal o meu pastel de açúcar de pasteleiro. Tão fácil, mexer no mesmo panelão sementes de uma industrial evidência e os pequenos dramas e sorrisos desse segmento de recta torcido a meio, onde pessoas de verdade existiam e sabiam disso. Hoje não as conheço. As que sobraram, se sobraram. Mas chegaram outras, tão reais como as que partiram, descendentes justíssimas das de então. E eu sei, eu era uma delas. Delego nestas o que soube e a que sabia. Desejo só que agora se aprendam sabores e se reconheçam cores e copas de árvores.

Cruel

Prevejo o fim da litigação. Prevejo os gritos de melodia depois de acordar antes de algum meio-dia, volante em direcção ao outro lado do rio, cabelo sem forma e os cigarros guardados no fundo de um saco de cabedal tão gasto, sem sabor a cruel. Prevejo a curva, os sentidos únicos, as pessoas de trabalho cubicular a troco de um dinheiro de cor lamacenta. Prevejo a ânsia e o labor de jornas impossíveis, os destinos demasiado longe onde chegar não é importante. Prevejo a luz tornar-se noite e luz outra vez. Prevejo a electricidade ao longo das esquinas iluminando-me a cama e a amante transformando-se em mim. Prevejo o bocejo e a repetição. Prevejo seringas, vómitos secos, unhas sujas e rasgões. Prevejo uma noite mal dormida, porque o sono preferiu dois quartos depois neste corredor ao ar livre. Prevejo guerras e munições, bolos a escorrer creme de um amarelo industrial, mãos estendidas por vícios habituais. Prevejo reis e rainhas, pobres de um empobrecer colectivo e comunal, partilha de misérias e uma ou outra vez de palmadinhas nas costas. Prevejo micróbios em todas as carteiras de senhora. Prevejo uma pausa, um intervalar de beijos traiçoeiros, de coxas apertando coxas, desaguares de etiqueta e humores fugidios. Prevejo acreditar em daqui a pouco, com o néon do motel piscando-me o horizonte e de chave na mão, fugir para o próximo condado ou estado de coisas, previsão tola onde crueldade é repetir o amor como uma droga. Prevejo e até logo.

Para que servem?

Os mordiscos preferiam outra hora e outro bairro, um domingo cheio de igual mas de outro recheio, de mais de alguma coisa onde longe é não estar lá. Desapontado? Não, pois o apenas não será uma única porta ou sequer o beco sem traseiras. As coisas e as ideias que as criam, não são de cor única ou sentido obrigatório. São serpentes que se mostram em terraços, nos tectos dos prédios sob a luz de domingos banhados a ocasos, esse laranja convidativo onde se resume a arte de ser e de existir. Para que servem os amigos, os comentários sem voz, as palavras em fórmula escrita sem olhos nos olhos, ou ao menos a sombra movediça à distância de um agarrão. Pedes, peço, grito por gargalhadas com sabor, rujo as horas onde todos se meterão neste mundo nove sem minutos para o essencial, sem pausas para avançar nessa rota de cumplicidades, de beijos perdidos ao longo da tarde, esse leito fértil onde margens são quando se olha para o lado e se encontra um par de olhos que brilha como o nosso. É cruel a civilização quando assenta na barbárie de ombros sem nome ou mudez adquirida. Faltam as conversas de mesa para mesa, as frases entre desconhecidos, os bons qualquer coisa seguidos de passos assentes em sorriso. Balimos ao clique do período pago ao cêntimo sempre acrescentado. Merecemos a tosquia e o galinheiro. Até o matadouro. Somos bifes cheios de gordura, cascas de algum prazer de segundos. Somos e seremos, evitamos correr para o comboio, sorvemos o café e nunca sabemos a cor da chávena. Raramente sabemos o nome da canção. Esquecer é o rumo do regime. E eu, de pé neste terraço à luz do fim de tarde que me define, silencio a vontade de berrar o teu nome. Os vossos nomes. Para que subam a todos os telhados e lembrem: que os domingos deixem um rasto de açúcar.

fevereiro 16, 2011

Ficaste à minha espera?


Como essa praia, essa que conheces, onde te abrigas, lugar de encontro, uma antiga essência de agora, músculo que compreendes sem a gaveta dos sinónimos, sem o teu nome nem a fisionomia, tu por dentro e por fora, essas gramas que alteram o cadáver, esse olhar em algo preferido, talvez determinado, as folhas verdes, o cinzento feito azul, uma luz por cima de todas as coisas, um além sem nome próprio, a pele em saliência respirando a medida exacta de ar para um coração aberto e o vento voando em todas as direcções, em arquivos de doce e sal, sorvendo o lacre de existir num momento chamado certo, tantas palavras para escolher, comboios de partida para leste, avozinhas sentadas nas cozinhas depois de serem o que são, chávenas de café e chicória para acabar nas entranhas ávidas de alguma certeza.
És calmo e terra batida, encolher os ombros aos sapatos com poeira, descrever o pulso e não saber contar, ganhar os prémios só de imaginar concorrer. Caminhar apenas por existir caminho? Esse medo de ousar por se acreditar em outro mundo. Precisas de ver, sentir as formas dos barcos de pesca, essas carcaças expectantes junto ao cais enquanto o hábito dorme. Aprendeste a seguir esse copo de vinho, acreditaste no sabor mas desconheces o seu alcance. Assim mesmo, sem tons bonitos ou sedas caras. Engoles sem saber o ânimo e a candura, a baunilha e o anil. Proteges o número de identificação que te determina o conhecimento, assinas as letras exactas da tua impressão digital e não reconheces se vives ou já morreste. Obedeces a quem? A um fascínio corrente que te ensina ou reconheces num espelho qualquer os lábios com que beijas.
É longa a crença e o vesúvio, esse encanto mordaz na tentação de ser no mundo dos acordados, um casulo de mel amargo onde a geleia é real sem o significado. Conhecer o miserável, a ladainha e a fome, ver a solidão com todas as suas cores baças e gastas, beber graduações impossíveis apenas para continuar ser sozinho rodeado de espíritos, que nunca serão fantasmas. Sentado à tua mesa, no fim da manjedoura onde te acalmaste, esperando sempre mais um mimo, um acrescento de comodidade mesmo sem compreender o conceito, aí sentado com quase tudo à beira da mão estão os abismos que as cidades míticas revelavam ao se aventurar nas profundezas do acesso. E de ti ninguém se lembrará do nome. Ninguém dos que sabem recordar, porque esses não conhecem o suspiro e o pescoço assente em linho. Vaguear tem preço. O mesmo que se esconde na compreensão. E para esse não existe câmbio. Não se conhece taxa de juro. Acorda. Tens a praia a teus pés. Pousa as tuas mãos na areia. Olhas e reconheces o rasto. Bebes os olhos. Fixas o que vês. E por entre a chuva, recuperas a razão de teres chegado aqui.

fevereiro 12, 2011

Ian Brown "Stellify"

Kalashnikov de calibre com sabor a sábado

A lista de supermercado foi escrita em papel de cerimónia. A camisa, com o rasgão no sítio habitual, permitia todos os smokings possíveis. As unhas limpas, o hálito lavado, o cabelo com a onda de um corte fresco, o isqueiro e os cigarros de puta. Na mão um cd de acordo com o tempo. A tosse rouca insistente e um tom de frio no rim do lado direito. Risos na sala, sem ser de circunstância e uma nova experiência no fundo da carteira. O dia não me prometia nada. Nem eu. Somos tão honestos.

fevereiro 11, 2011

Laibach "Contrapunctus 8, a 3"

O fim dos dias dos outros

Preparo-me e sou do tempo,
do tempo do arrependimento,
esse arrepio feito lâmina
senhora de mil empenhos,
onde me enrosco
e me entranho,
sujo e surdo de encanto,
ao ser senhor ao mesmo tempo
de um eu e outro então,
corropio escravo de ser,
e no entretanto
comer todos os animais
e em concha
beber a água do seu banho,
última homenagem
de um peão
no empenho de ser torre,
essa menagem
onde desejo o descanso,
mesmo se acorrentado
mesmo ao lado
de todo o ladrão
e demente,
judiar quem tem a chave,
e ao sol,
quebrado,
quebrar a promessa
de aquietar,
baixar a cabeça
e ser.

Tito y la Tarantula "After Dark"

Depois do entardecer

Moro à beira de uma estrada poeirenta, onde as pedras se estilhaçam nesse asfalto cor de vinho. Moro aqui uma noite por dia. Não gosto de atilhos, e desses, tolero apenas os das prostitutas mexicanas. Todos os dias compro uma marca diferente de cigarros. Nos dias que me obrigam a repetir, morro duas horas. Quando chegar às 24, irei sem azedume. Talvez agridoce, mas de sorriso e dedos em formato de bênção. Todos dias, e noites, pergunto a alguém o meu sentido. O meu lado da vida. Já consegui mais de mil respostas aceitáveis. Todos me conhecem melhor e eu minto tanto. Também já consegui duas ou três, quatro, respostas perfeitas. Foram as rodadas mais aconchegantes deste lado da estrada. As dezenas, talvez mais, que resultaram em interjeições mudas, provaram saber a verdade. A verdade, essa incongruência de fios de seda sempre em cor desmaiada. E conheço tantos mentirosos. Criativos, de camisa desfraldada, cabelos desgrenhados seja a direcção do vento. A verdade e a mentira, em copos sujos e noites compridas sem perdão nem amor. Uma paixão por dia. Uma entrega animal cada noite. As vozes roucas sugerindo cadências e gritando peles suadas, por um prazer sempre mais e mais, até aos momentos do altar. Nunca praguejo na minha língua materna. Porque insultar os deuses soa-me melhor na língua local. Fuck.

Desabafo ou memorando

A questão é esta: aturar é o primeiro passo no acolher desse boião de opiniões a metro. E eu tentei. Uma vez, na melhor das intenções. Duas vezes, num engolir de razões e certezas. E essa terceira vez, camuflado em nome próprio, corporativamente participativo e em nojentos espasmos de politicamente correcto embrulhado em papel de lustro correcto. E quero-me penitente ao verificar o asno que fui e pareci. Há tantas palavras que se escrevem e não se dizem. Culpa? Toda. A fama tem destas coisas, descemos tão baixo que custa reconhecermos a nossa sombra desfiada.

fevereiro 09, 2011

Adormecer

Representar papéis, palavras de outras pessoas sem as folhas brancas que preciso. Sentir as noites de outros corpos, murmurar as palavras dos filmes e das folhas preenchidas de outras pessoas preenchidas por outros alcances. Anseio, por reconhecer no verbo as notas das canções que me fazem parar. Perjúrio, por lamentar as declarações de amor que fiz com palavras de outros, respiradas nos suspiros de outros olhos colados às janelas humedecidas pela chuva. Sento-me nesse tribunal de mim só e minto. Juro a solenidade nos livros que não sinto, evito olhar de frente os jurados, não reconheço advogado e juiz. Todos têm a minha cara e as minhas palavras. Todos são partes de uma verdade salpicada de mentiras. Todos são eu e eu não quero ser todos. E porque ser todos é afinal ser um, ser eu, eu não quero. Quero representar e quero as palavras, quero as noites e os murmúrios, quero o sabor que só eu sei. E ao querer, serei.

fevereiro 07, 2011

Cantiga

Preferias começar o ano sempre e outra vez? Preferias um lugar sentado no amor?
Preferias um caderno de folhas sempre brancas? Preferias seres sozinho ao seu calor?
Nesse sabor, nessa dúvida, desaguam mares de táxis desocupados.

Preferias um sol sempre a correr? Preferias atilhos e laços na fronteira?
Preferias um ocaso à tua espera? Preferias guiar mundos à tua beira?
Nesse calor, nessa ternura, precipitam-se as areias do vagar.

Preferias viver no quarto escuro? Preferias olhos meigos no Verão?
Preferias beijos como remédio? Preferias as batidas ou outro coração?
Nesse tom, nessa cadência, encontras a razão e o nó cego.

Preferias guardar a tarde e a saudade? Preferias cair acordado?
Preferias o que escondes ao esconderijo? Preferias amar a ser amado?
Nessa e nesse tornarás. E mais, muito mais.

Servir frio, quase quente

Agradecem-se gestos, espaço de passagem ou a pachorra de arranjar os bilhetes para a porta certa. Agradeço todos os confins do mundo conhecido, e em todos os confins desdobro-me em atenções que em cada 4 me sobram 3 sorrisos fechados. São mil as facetas dos meus obrigados. Suaves, bruscos, desinteressados que também os há, interesseiros quando se servem em dias de dieta, brutais de tão redondos, surdos quando soam a mudos. E podem soar a rios de sol ou a manhãs de verão de cor baunilha, quando a baunilha é imaginada amarela a desmaiar para o pastel. E agradecem-se divindades, desmiolados com nome de deus, mulheres histéricas apenas por serem mulheres. E agradecem-se ladrões, assassinos e corruptos, todos do género masculino. Porque feminino é um verbo mais subtil, mesmo esquartejando um amante maçador. E ao obrigado militante, gosto de juntar os qb´s que me amaciam o goto. Apenas qb´s, para não se me pegarem os molhos.