março 30, 2011

Anne Clark "Full Moon"

Agridoce

O homem na lua, sem o ser, sem o parecer, procura a altitude com que se compara aos deuses, esses sim, peões de vigarice levados à potência pela simples atitude de serem uma invenção humana, esses humanos que não acreditam na espécie que se esfuma na selva onde se afundam em lodo cor de rosa. Leio os jornais, as revistas de edição fácil, ouço e regurgito os comentários ininterruptos, as colunas de opinião, as democracias em tempo útil, nas gargalhadas dos que bebem e esperam a assistente para os levar ao confessionário. Sou um sem-abrigo, tenho cama e calor. Sinto-me só, na medida do desejo de prolongar. Sinto frio e tenho as costas doridas. A lua já desapareceu e eu continuo a vê-la e a falar-lhe de amor. Um amor que só eu conheço. E, num paradoxo milenar, não o ofereço a ninguém.

março 27, 2011

Under Electric Light "Wintertime"

Chuva e inverno fora de horas

Tantas letras, palavras inventadas por algum mistério, se mistério fosse a palavra certa para assombro, como se electricidade fosse uma cor e as laranjas apenas barras de arco-íris. A minha voz permanece quieta, sem saber se mudez é opção, por opção se compreender uma ou outra, verbo significar algo a acontecer e as refeições terminarem sempre com o copo de água de toda a chuva que se insistir sentada e absorta, no tempo e na tarde que nunca convergem num relógio por se tratar de uma jóia ou até comida de animal. Lembro-me dos porcos por serem pétalas e o engano, tão comum nestes leitos de água sem sono, de se oferecerem em ramo ou simplesmente serem mastigados. Confundo sempre, sempre por se tratar de algo continuado, riso e sorriso, será por fazerem parte um do outro ou serem, por existirem e serem vistos de noite, complemento como um casamento precisa de duas pessoas, se pessoas forem as que sei ver corar. E no fim, provavelmente por todas as estradas acabarem em algum sítio, no caminho, entre as ervas, por se considerar caminho onde há ervas e assim o abandono também é ponto de passagem, há um que. Que se mexe e se torce, entalado na garganta ou atravessado na abertura de um muro, seja escama ou animal empalhado, um que, que entope e encrava e se atravessa pois vive na configuração de ponte e alívio. Tudo, se a lista estiver inteira, se move ou mantém-se imóvel, pela simples, talvez nem sempre, lógica, quero dizer razão, de eu saber olhar, mesmo se não souber o que estou a ver.

março 26, 2011

Bette Davis Eyes

Relevo debaixo dos lençóis

Conheces o espaço que te encolhe, aquele canto de gaveta longo enquanto esse escorregar entre traves e esquadrias, caprichos de carpintaria onde o artesão é afinal letrado e único barómetro de realeza, tão real é o seu pecado, essa soberba de lentas lascas, violência suprema de mão certa e dogma enrugado. Sei que me reconheces, a mim o inútil, esse violador de lágrimas alheias, o primeiro na fila a sugar o instante de quem o teve. Alimento-me do roubo, abano as barras do que é a prisão que me contém. De cela em cela, perdoo-me estirado em lençóis escuros, luxúria de sorriso apertado com um cinto de cabedal antigo, odorífico o bastante para me aceitar o castigo. Encho-me de dor escondida debaixo de qualquer sofá de inquietação, forrado a vinho. Conheço-te na face que reflectes no copo. Sei que és tu. Reconheço-te mais do que te conheço. E basta o paradoxo para proferir as certezas, pelo menos deste mundo. Gritavas sempre que te pegava ao colo, talvez por tresandar a solidão. Porque me torturo todas as noites antes de engolir o sono? Maturo cada sonho e descasco-o com vagares de Verão. Preferes ver-me de longe, com o choro nas palmas das mãos? Serás assim tão perfeita? Serás uma? Serei um? Serei, sequer?

Lábios cor de...

Os estranhos habitam a meu lado, dentro de mim, no rebordo doa lábios que utilizo para os beijos. Não sei beijar, desconheço intenção e técnica artesanal. Sei algo de artista, apenas no segurar do copo e ver o vinho escorregar lentamente pelo vidro. Nem o rubi me atrevo a avaliar. Aceno com amizade ternurenta todos os ph ferozes e flácidos. Juram-me amor eterno e subjugam a paixão, mesmo se demorar um momento. Nada será devagar. Prometo. Será que ainda sei jurar?

março 13, 2011

Eles erguem as nossas cidades

Construir, constituir, levar o alto até nada ser mais alto, proteger, reciclar. Preferir, atingir, sonhar em democracia, alimentar os ismos e em janelas panorâmicas ousar e ficar sentados à espera de algo acontecer. Motivar, receber, obedecer às traves mestras e conhecer todos os ângulos e arestas. Prever, emudecer, testar as moléculas e todo o adn que se puder agarrar. Idealizar, ver o futuro pelo telescópio, crivar de balas, vender a alma, apodrecer, saborear ostras e finas lamelas de pato lacado. Convencer, rezar, tornar papisas todas as maternas formas de vida. O erro humano julga-se uno e dogmático. Porquê arremessá-lo à parede? Existe o risco dele não escorregar.

Bordel

Violência velada nessa voz de fatalismo e meias pretas de rede, enquanto os machos se perfilam para a pose inicial. Dissimulado, não pertenço a qualquer tribo, vagueio nos territórios dessas feras motivando os ódios que me seringam energia. Tenho os caninos gastos, a lua já não me conhece, o preto que vesti tornou-se amarelado. Porém, o brilho nos meus olhos mantém-se o do primeiro dia. Vivi no século errado. Sei-o desde sempre.

A face de outro recém nascido

Parto para o amor, para esse fulgor de ser vivo, mais do que estar. Agito este meu corpo cansado à cadência desse poder no escuro, onde ser cru é manter vigilância. Não importam as pausas, convertem-nos à divindade que descobrimos em becos pintados de negro. Hesitamos entre o grito e o berro. E essa dúvida por respeito ao momento. Essa criminosa gota de água que só se bebe uma vez.

Dia seguinte, manhã atingida pelos filamentos fundidos da noite que a antecede. Cada dia é decidir o seguinte. Se, seguinte. Tudo parece mais pequeno, menos formal porque aqui também existem beijos e abraços. Uma chávena de chá frio, o pão que alguém deixou por um encolher de ombros, a medida de subtrair o credo, a lembrança de uma casa algures, um céu diferente de cinzento. E nesse mais, ou algum, o poder efémero de se ter alguma carícia.

Indiferente, fecho a porta deste destroço, desço as escadas destruídas por anos de inércia e junto à entrada esqueço-me de todo o antes.

Ética

Já. No fim de todas as vielas vazias de desgraça, garrafas desgarradas por todos os chãos que pisei e preferi aos lençóis e cobertores do albergue. Gritei, por ti e por todos os que vi perder a razão, asfixiados em tudo o que é longe e alto. Cometi crimes, reneguei um passado que decidi reescrever, saltei por cima de bancos de jardim, apenas para fugir à velhice. E não paro, não me sei vencido, persigo as palavras das canções, escrevendo-lhes sempre um verso mais. E no arrepio, no vento que me molha a cara, cultivo esta pretensa alienação. Para estar vivo no momento em que declarem morto.

Por tanta fé que encontrei

Recebi um encanto adivinhando o jardim e o labirinto, entardecer sereno de todos os mansos que herdaram a terra, a de alguém, a que ficou perdida em ruínas de falta de querer, lonjuras desses lugares pios onde se altiva o saber, orando a horas certas, quando certa é a ceia e mais nenhum nenúfar. Nessas pedras onde se repousa a penitência, já ecoaram queixumes e cordas de pescoços vincados. Já existiram dias e noites, hábitos e pachos de medronho, olhos piedosos de soslaio nas torres da indiferença. Os peregrinos sabiam o meu nome, o meu bordão, conheciam os brindes que fazia noite alta, a quem ofendi e os hereges que queimaram em meu nome. Viram-me abandonar o poiso, e de longe acenaram-me para que me voltasse e retribuísse. Nunca o fiz. Preferi perder-me nos trilhos que me levam ao mar.

março 12, 2011

Antes de outra coisa qualquer

O amor espera-me
em anéis primaveris
cioso de toda a demora
como sentinela de guarda à infanta.

Profecia

Mais e sobre-humano
carícias de vidro fosco
nesse sótão guardado a chaves
de formas tendenciosas
mitos de portas que se fecham sozinhas
pássaros que voam ao contrário
amores de velas apagadas
como se o amor fosse entrudo e vizinhança.

O piano de cauda de veludo
a garrafa de cristal
os copos pingados de beijos
o deboche em altar de pergaminho
eis o vulgar feito supremo
as línguas preferindo sublimes
enquanto o velho de barbas sujas
não surge
e fecha o éden com estrondo.

O amarelo será sol para sempre

Tudo em vagas de todo
surgindo ao longo dessa rua estreita
vago relance do mar acabado
repousando nesse recanto
onde nessa escadaria
respaldo a espera.

Já não é hora de véus
nem os fantasmas
se querem em formas de ar
porque as razões
e as atitudes férreas
não se vestem de cores naturais.

Restam os motins
a crença falível
de abrir caminho a golpes de espada.

Sobram os motivos
as árvores pingando
os remoinhos sacrificando sereias.

E do fundo desse mar revolto
encerram-se torres de menagem
por todos os cavalos
que a rainha hesitou tomar.

A verdadeira primeira vez

Delicado em torno dessa romã e beringelas que adoçam os sentidos, esses demónios de freio nos dentes replicando a norma e o amor por coisas acima da ideia. À deriva com os olhos em forma de ouvido, o fato de explorador sobre as gotas de suor, o jerrycan de gasolina ondulando de octanas fartas enquanto o senhor de fato caqui abana notas de banco na esperança de conseguir alguma atenção. São sujas as guerras de diamantes e as do amor. Revelam o ínfimo como se o quilate servisse para alguma coisa. As areias do deserto ocultam os odores e os corpos perdidos em batalha, danos colaterais que nunca o são realmente, pela angústia, pelo remorso e nessa mentira chamada adorno. Tudo parece complicado, enredado em fios de cobre e beijos furtivos. E todas as canções deste lado do mundo falam de crianças dormindo com anjos. E nessas palavras, todo o segredo do lado de cá da duna.

The Cure "Primary"

Estuque

Sei todas as coisas que o prazer pensa. Sei por uma noite quase manhã, à beira dessa ponte de salto fácil, junto a tais candeeiros dourados, culpa sombria ao alumiar assassinos e poetas. Sei ignorar os sinos quando me chamam para a culpa. E sei se a vergonha me atrasa os passos, ou quando a porta de fecha antes da minha estocada. Sei em cada possessivo meu, em cada mentirosa minha, todos os filamentos que fragilizam cada dia. E sei todas as orações e todas as blasfémias, talvez por se lerem na mesma página. E tarde, já tarde, percebo então o limite e o acolhimento desse sorriso roubado. Tão tarde que as razões já se encontrarão exangues.

A primeira hora é sagrada

Ao longo dos meus ombros que se escondem da noite, ordeno aos meus dedos que se apressem. Temo a resignação, o poder da biologia ou desse espírito mortal que se empenha em fechar portas e recusar as asas da discórdia. Fora do silêncio existem oscilações, o perigo morno dos compassos, os veludos revelando a pele alva do pecado. Por dever a desses demónios sento-me ao piano, derrubo os castiçais e mergulho no copo de vinho como se a minha morte fosse requisito. São passos e vestes longas roçando o chão, são as concubinas de todos os cardeais devorando cada página onde escondo poesia. E nesse imóvel cárcere de ametistas, reconheço o meu carrasco. Acena de longe com um lenço rendado, cioso de cada gemido e entretido na gula do meu sangue. Devo-lhe a vida e por isso, ironia das ironias, limpo-lhe os sapatos e cuspo, para lhe avivar o brilho.

Tudo por uma visão do outro mundo

Dias aqui, em tons turquesa, em polvorosa por todo o encantamento e desencantamento de todos os dias sem desgoverno, dias onde se procuram pepitas e mesas de café onde se esquecem o relógio e o clima, onde o velho se encontra humano e limpo de inquietação. Todos os velhos e as crianças são levados por criminosos de gravata escurecida pelo esquecimento. Ou então por não se lembrarem de terem nascido. Não se lembrarão de ser velhos, por culpa de uma velha mãe que não os soube afogar no rio à beira da próxima curva. Dias de rapina, processos onde pássaros tentam explicar que sabem voar. Os descalços metem-se a caminho, há sempre um fim de terra algures, um fim de estrada rumo a uma costa onde o passo em falso não merece perjúrio nem cicuta, onde os pecados os levam o vento. Todos os comboios, todas as chávenas de chá, todos os poetas e vendidos se mascaram, há divindades em todas as janelas, das varandas jazem enforcados e cambraias, curiosa encarnação de recém nascidos, onde cada cordão umbilical é nó de pescador e certeza de penitência. Dias de espanto, de vinho e rosas, dias de axioma por não se conhecerem as variáveis. Na cozinha preparam-se manjares nunca vistos. Serão paladares improváveis, mais cordiais que uma abadessa fiel. Serão dias de fartura, cornucópias pejadas de antigas formas de ver o dia. Será o dia da reconquista. E se morrerem multidões, comeremos croissants às varandas, atulhados de açucares e banha, o bastante para pregarmos a bem-aventurança. Dias aqui, à força de chicote, ao bater o coração terno de uma donzela.

O céu, aqui

Há uma chuva por cima da muro,
perto do oceano,
longe do destino,
cama de areia que me veste,
que te embala,
motivo para sentir
mão na mão,
credo na língua
e visitação de algo nobre,
perdidos na costa,
por cima do muro,
crivados de balas
enquanto se cantam profundidades.

Há uma chuva por cima do muro,
o bastante
para se agitarem bandeiras,
todos os panos
de todas as agitações,
batalhas forjadas
em beijos colhidos no centro da tormenta.

Há uma chuva por cima do muro,
por saber
e imaginar,
que ao longo do cais
existem todas as chuvas do oceano.

março 03, 2011

Vocal

Pertenço a uma decisão ou no melhor pano, a um entendimento. Ser e admitir são premissas, factos reais de um documentário onde um regador é muito mais do que parece. Conhecer como verbo é manifestamente fraco. Ínfimo por não deter os desejos de mil noites, ou fins de tarde que me são unha com carne. Sei o que pretendo escrever, com que livre arbítrio e quais os tubos de ensaio a sujar. Sei até quais os reagentes. Sei a cor do cabelo e da demora. Sei até onde chega a avenida e que marés se devem esperar. Com todos os cerimoniais que me fizeram voltar aos lugares, construo camadas cortadas com a precaução do papel. Não é a fome que deve ser saciada. Não há lugar aqui para alimentações rotineiras. O sabor é ministrado em doses que só os amantes entendem. E amante é um desígnio difícil de alcançar.

março 02, 2011

Ladrões como eu

Fumo, bebo, mordisco e mastigo, olho e observo, saboreio, sorrio, apercebo, ouço, arrepio, sinto, distendo, escrevo, durmo, permito-me as ideias do universo que ouso conhecer, sugiro-me as imaginações que me fazem um todo, firo-me nas impossibilidades que me torturam, nado entre as elevações de carácter, acrescento lâminas e morangos aos saudosismos com que cozinho plebeias solenidades. E em redondeios, porventura inusitados, faço surgir rituais extremos, mesmo se renego papas e importâncias, meras tolices que me servem de adubo, quando decidir lavrar o resto dos meus dias.

março 01, 2011

Sugar Kane

Lamento rosas e ramos ressequidos por deixar os elementos regular os passos e todos os açucares deste mundo. Escolhem-se títulos, etiquetam-se os amanheceres e as noites tardias, como se não houvesse um fio condutor entre ambas. Abre-se o frigorífico e os dedos gelam. Estendem-se os dedos ao sol e recupera-se o morno de um nascimento ao fim da tarde. Devia-se construir uma rua entre as maternidades e os cemitérios. E depois... E depois, cobrir o asfalto com terra fértil e adubos naturais. E depois... E depois, cresciam fios de relva onde cada tom de verde seria um arco-íris reinventado, onde os meus filhos se sentariam. Onde me sentaria com os meus filhos. Onde, de sorriso aceso, confessaríamos amor eterno, como as paixões dos livros e das histórias de lenda. E sempre que me picar num espinho de rosa, recolheria essas gotas de sangue e regava a relva com ele. Até as rosas se mostrarem tão vermelhas como a minha relva.