dezembro 21, 2012

Hoje não houve meio-dia



Janelas de sentido único - prezado ouvinte, sinta o cheiro da nova estação - janelas alinhadas ou fatias de bolo, vícios à espreita como quem se esconde e olha a silhueta quase desnuda - são horas, o seu tempo chegou e tomou o nosso - estremecendo copas de árvores e entendendo a geometria de varandas onde se suspende a fantasia, o conforto e o desgosto de ser aqui, a alcatifa, o lençol, o dia cinzento e amargo, salpicos de incerteza por não se conhecer o próximo passo. Quase é um dogma. E mesmo assim, embrulham-se tachos de arroz de tomate em jornais, mexem-se saladas com as mãos, enche-se o copo de vinho só a meio e com o cotovelo apoiado na toalha olha-se a rua pela janela, o apetite à espera, as juras de amor no bolso e o cigarro paciente. E assim, como o locutor de rádio afiançava, estamos aqui toda a tarde, como se a tarde fosse uma vida inteira, e o encosto da cadeira, o único amor de uma vida.

dezembro 14, 2012

Um certo meio-dia depois da hora



Certezas do que não existe, essa invenção de peluche recortando as realidades, as que forem e as escondidas, mais aquelas que são em esplendores de lixo e restos de comida dourada, todo um mundo de fantasia onde nos dizem como olhar e dizer. De fora, daqui, olho estas monstruosidades e espero a chuva para mudar de canal. Na janela, as últimas flores habituam-se à penumbra. Lá fora, nos degraus amarelecidos, juntam-se, em repouso, as entidades cuja invisibilidade perturba. Preparo-lhes chá e amêndoas, como todos os semestres. Oferecem-me a indulgência. E eu, grato, cerro os olhos e sinto-lhes a alma, uma, partilhada como uma especiaria. Olho de relance o canal que agora me parece difuso. Apago-o com o pensamento. Já não preciso dele.

dezembro 05, 2012

Deste lado do paraíso

As moedas guardadas e repetidas, os corredores, as circunstâncias, desmaiadas no sentido descendente da incúria. Os elevadores, as portas fechadas e abertas barafustando filamentos, os dedos indicadores espetados na certeza e no vazio. Deste lado as gaivotas falam, salpicam de leve cada manhã, substituem-se aos deuses que dormem. Do outro lado, o sono acordado é hipnose e logro. O cansaço. A promessa do jardim se prolongar até à ponte. A bicicleta sem travões descendo a rua dos encontros. O linho desfiado, essa personagem, meia miragem, encerrada em livros de lombada descomunal onde se arrumam antigamentes. Deste lado, à guarda da poltrona, folheando vagares, as moedas sabem a rebuçados, os corredores parecem passagens secretas e as circunstâncias são apenas atacadores desapertados.

novembro 29, 2012

Ocular




Digito e por essa causa, virtuo. Pertenço a toda e ao restrito, desventro-me e assemblo-me, projecto o dever e o devir, rodando em mim mesmo, sobre o meu ente no gesto de substituição do divino pelo resto de uma divisão, eu pela consciência, eu como cume e labirinto oculto pela superfície. No movimento atinjo, na pausa renovo, no reinício aprendo. A junção dos sentidos num só, como se a fusão fosse um método religioso, circulando as cores como veículos e os órgãos na exacta medida da sua imponderabilidade. As coisas são objectos ao sol e emoções no escuro. Porque a claridade e escuridão sentem-se, em simultâneo, em contacto com a impressão digital. Uma que se torne causa.

novembro 27, 2012

Atitudes e apetites



Ao descer a rua das montras de vidros tocando o passeio, penso e existo nas três esquinas que do lado esquerdo me desafiam e atrevem-me a alma. Decido esquecer as vírgulas e outras hesitações. O que sai de dentro não deve ser tocado. Como um passo seguindo outro, calçada de cubos assimétricos, revelo os rócocos nas esquadrias e aqueles cetins ou linhos sobre meios-manequins, a forma perfeita de me lembrar de algo. Na primeira esquina exijo-me o título, talvez a capa. O cheiro também. Não se trata de odores nem fragrâncias. Cheiros, assim, crus, dolentes e demorados. Como se a intensidade fosse um minuto inteiro. Acredito numa sensação de recordação e sem remorso atiro-me em frente. Regresso a este tapete de ontem e hoje, impossíveis de separar. Na segunda esquina, faltam os ganchos e a fita cola nunca o foi. O fascínio já lá não está. Adiante. Algum cauteleiro, senhoras de cabelo suspenso, elegâncias e sujidades à mesma mesa de lanche. Alguns dourados. Demasiados sinais de doença. Uma doença arrastada, vivida, resignada em cada refeição, em cada sono, em cada véspera de Natal. Vejo a terceira esquina. Está lá como uma sentinela sem tempo. Há tanto tempo. Paro, olho o chão e a ponta efervescente da bota negra de uma tropa que não o chega ser. Aperto o fecho do blusão até sentir o pescoço fechado. Passo a mão no cabelo aumentando a crista. Sorrio sem que os olhos por detrás dos óculos negros sorriam. Viro à esquerda como um bom soldado faria e de pé em riste, rebento o vidro da montra sem me proteger. Sinto o corte. O fio vermelho compõe-me. Atravesso a rua, faço uma carícia num bebé de carrinho e subo rumo à chávena reconfortante de chá.

Doutrinas



Doze caules feitos samurais, perdidamente apaixonados e sem dote para as filhas de porcelana de doze artesãos. As agruras têm sempre um número, um algarismo seguido de outro e mais outro, álgebra descodificada pelos santos sem religião, que não usam hábito nem virtude, que não conhecem a noção de pecado e abrem os braços com a liberdade de quem acredita no voo, léguas e milhas de campos onde crescem verdes rebentos de uma chuva persistente e mimada. São quatro as divindades que assistem aos fenómenos da vida. Não têm nome. Não precisam. Sabem, com rigor, as mil faces de cada samurai, as cinco mil formas do olhar de uma porcelana. Não se repetem, nem por uma vez: as sabedorias e as formas de ser mulher.

novembro 26, 2012

Ficção não ciêntifica



Seremos as vozes e os lamentos, as discórdias e todos os muros, os tijolos que construiram os fornos e as pás que recolhem as cinzas. Seremos o restolho e a colheita, por essa ordem, porque a numeração está inversa, endemoniada ao serviço de aritméticas perversas por resultados plurais. Seremos autónomos na cólera e na malária, ou cobertos de escamas num cretáceo fabricado com fibra óptica e roldanas. Seremos gritos, submissões, copos cheios e nódoas. Seremos as flores manchadas, arranjos perfeitos de bombardeamentos com hora marcada. E nas reuniões, entre calças vincadas e risco perfeito nos cabelos, surgirão debaixo das mesas, centopeias com viscosas decisões. Seremos então, fósseis.

novembro 22, 2012

Esperando senhores importantes

Na varanda, com vista para os ditadores, havia uma nesga por onde se via a porta do avião. Tinha o copo quase cheio. No parapeito todas as garrafas que quisesse, o suor que pingava, os vestígios habituais de sangue e os buracos de bala nas paredes. Com o sol a pique, o dia era uma dia normal, naquela doutrina específica que afirma o dia como um grupo de vinte e quatro horas, algumas escuras, outras de claridade. Aqui, a claridade era como a escuridão, uma exactidão difícil de conceber. A porta do avião continuava fechada. A risca vermelha ao longo da fuselagem, intocável no rebordo da porta. Alguns guardas de óculos escuros e metralhadora, o trivial. Bebi mais um gole e preparei-me para outro cigarro. No chão restos de maços ameaçavam a espera. Mais um olhar, a porta, encaixe de esquadro na superfície brilhante do avião. Olhei o copo e bebi o resto de uma só vez, adiantando uma impaciência própria de sol lancinante. Tinha no bolso as duas balas de ouro oferecidas no primeiro dia. Gostava de sentir o seu peso no bolso. Emprestavam-me valor. Ou alvo. Não sei ao certo a verdade. Tentei-me pentear mas senti uma pasta de cabelos encharcados e em desalinho. Típico. A cadeira, demasiado pequena para a arma, parecia uma miniatura de casa de bonecas. Sorri. São coisas que enternecem antes de ver o cérebro saltar em gomos.

novembro 21, 2012

Três pancadas com 3 segundos de intervalo



Na contenção, mãos paradas e dedos imóveis, desço o olhar submetendo a hora ao cardeal, ténue alvoroço por detrás da porta enferrujada, camuflada pelos contentores de caracteres cirílicos, longe do comum e muito além do mortal. A corrente do relógio estremece e toma o lugar do pêndulo. Os lábios têm sabor a sangue, como se a saliva fosse definitivamente espessa, textura sinuosa que mantém a sede unida ao prazer. Os passos querem-se vagarosos, desejam-se quase parados, num arrastar demente em direcção a cada recanto onde se desenham cruzes de todas as religiões, essas religiões onde a multidão é a lâmina de um punhal de cabo escaldado. Com o cabelo em desalinho, ombros ensopados pela chuva, o sabor da derradeira maldade permanece intacto. Tão intacto como a palidez de uma criança.

novembro 17, 2012

Aula

As palavras são tão permissíveis, tão atrevidas de memória e despidas de sabor, por pretenderem enfeitar em vez de dizer. As palavras que se dizem, que tu dizes, que eu ouço, que eu digo, baixinho, que eu grito desesperado, que decido entregar por desvario, as palavras presas por filamentos, ditas entre chocolates e trufas, mastigadas de fumo e vinho, as palavras da concordância, da definição carmesim, dos rituais semi-apagados em pergaminhos com sabor a sal e esgoto, as palavras em latim de todas as épocas. Cada letra é um prego na cruz de todos os senhores, senhoras de noite, senhores sem género ao permitir devaneios e risinhos nervosos. Cada letra, cada sílaba, acre, ácida de tanto amargo, escarro de tanto doce, tanto arabesco pintalgado de flores sem cheiro, sem cor, sem amor. Palavras sem sexo, sem orgasmo, palavras sem desejo nem prazer, ou apenas sem vontade. Palavras que se dizem pelos candeeiros ligados em cada sala iluminada e escurecida de carreirinhas de letras em marés absortas e obtusas, chaminés altas de fábricas de palavras, arrumadinhas em caixotes, com carimbos de envio para todos os destinos que se imaginem... menos a alma, mesmo se cheirando a lama.

novembro 13, 2012

Partindo pausas



Secretos restolhos e areais,
cestos de piquenique levados pela maré,
zumbidos à flor de uma pele
na palidez frágil de uma cintilação,
são as cadências
e nuvens feitas de almofada
onde o infantil tem o trono
e a rainha só se recorda dos confeitos amarelos.

Além
na falésia em forma de mesa,
permanecem os druidas desnudos,
sinal de tempos e relógios sem ponteiros,
ferrão espetado na linha de horizonte,
onde o sol já não está
e o laranja ainda existe.

Ruas de portas e números repetidos



Despido, à janela, situando-me tanto nesse quarto andar como no passeio ou no bar da esquina, rigorosamente na esquina, entendo a espera como o passo fulcral do prazer. As vozes, as que deixo entrar, cercam-me de dedos apontados, lençóis esperando calor, copos que se querem meio cheios, deveres e brincos de madre-pérola espalhados por entre os papeis, cinzeiros cheios. Na rua, no passeio por debaixo das árvores sussurrantes, os degraus esperam a pausa ou o vício, o assassino de medo em riste, a mesma espera, os embriagados de rumo incerto descobrindo curiosidades alheias como se o escuro se tratasse com xarope. Na esquina, rigorosamente na esquina, já não existe nada. Tiraram o bar, todo, levaram-no para às escondidas o despirem e o meterem na cama, um sono que não acabe, um sono que faça o esquecimento acordar. O vidro da minha janela tem desenhada a minha respiração. Traço-lhe uma decisão. Alguém, os passos incertos de algum amante, olharão para cima e reconhecerão a senha. A porta está aberta. Sempre esteve.

novembro 10, 2012

Carnegie é antes da próxima esquina



Enquanto espero olho a ponta das calças amarrotadas, aquele afunilar do joelho ao sapato, pretendido na fluidez de uma avenida de luzes ainda acesas, descendo de um pedestal até à praça vazia que ainda há pouco abarrotava de passeantes e gabarolas, esses de cabelo revolto à custa de toques de pulso, cigarros acesos porque sim, portas abertas chamando incautos. Toco com dois dedos no copo, ensaiando movimento que entrechoque o que resta das duas pedras de gelo, pé apoiado nesse tamborim cor de vinho, goles gulosos que daria se fossem menos horas, se as soubesse subtrair e agitar a aritmética do tempo perdido, aquele sorriso feito algoritmo, como se o barman tivesse algo a esconder e aquela mulher, que apenas lhe resta fatalidade, conhecesse os segredos de todos, os que se demoram e os demais, rápidos no prazer e como dobram a esquina. Demorar é o verbo, a coluna jónica do desejo, a dois, o par elevado à condição de único, divindades a meias santificando o prazer à vez. Por cima da última fila de garrafas jaz aquela gravura que insisto homenagear Turner ou algum anónimo, efeito de um ópio envelhecido sem odor nem maleabilidade, mas que se fuma por obrigação. Na esteira, uma gasta partitura. Serve-me de consolo como alguma almofada, se a houvesse. Vejo-a de linhas alinhadas, pontinhos negros ensaiando escadas, a derradeira versão de um testamento roubado em casa de ourives. Sigo-a pelas ruas que circundam o bairro dos quartos alugados, revejo-me no matraqueio regular dos seus saltos altos, serpenteio pela costura da sua meia, colheita preferencial do meu amor que será fumo daqui a duas horas. Serei fiel. Mas apenas enquanto as duas horas demorarem. A demora. A pressa de esperar num banco corrido de madeira numa estação de comboio, malas roçando o chão e esses apressados de farda e boné controlando bilhetes e intenções. Subo a carruagem número sete, amarrotando a ponta da calça, aquela junto ao sapato. Piso a alcatifa adoentada e sigo a geometria básica de um corredor sem extensão. Paro à porta do compartimento vazio, cubículo que tresanda a tabaco e suor. Sento-me revolto em cansaço, moído como farinha, e avisado em demasia dos perigos da fronteira e dos viajantes de última hora.

novembro 09, 2012

Debaixo da mente e à beira da cela

Curvilíneos solares em abóbodas onde se movem as linhas do dedo divino, esse divino chamado ontem, transformação de um medo ou de circulares fechos de contas antigas, uma provocação gerida pelos vulcões, outrora apagados, sediados em alguma cafeteria japonesa onde o tapete rola submisso, soturno, empalidecendo esgares e apetites, daqueles que não terminam, dos que desaguam em hóteis de néon incompleto e camas desfeitas, porque o tempo não demora e os gestos exigem atenção. Somos peças de algemas, encadeados pelo abismo das nossas escolhas, varandas nocturnas onde se espreitam os amantes do prédio próximo, relevos de pêndulo contínuo enquanto a manhã não regressa. Ao longe o comboio, as janelas trémulas de cada passagem, vítimas de horários de conveniência. Já não existe o romântico matraqueio do carril, algum mordomo de ocasião anunciando o sabor e o pecado. Já se esqueceram os furtivos beijos em algum apeadeiro de província, ignorados e motivo de conversa por semanas. Sentado ao balcão, hesitando entre o café frio e a cerveja choca, observo mais do que vejo. E por isso, sou voyeur de mim próprio.

Pretendido



Nesse então,
curiosa cadência
ao ser um
e depois mais outro,
sorvem-se boreais
desaguando na turva
e elementar
copa de árvore,
caduca de um Outono demorado
como se cada erva
e cada chávena de chá,
violentassem a espera
e o odor a sossego.

O perigo de todos os dias,
suaves ou pedregosos,
é a quantidade,
ínfima,
de sangue que impregna
o beijo
e a vontade.

novembro 08, 2012

Onde a falésia decide a planície



Saltos, cabriolas e gritos submersos em areia molhada e cores de manhã infantil, doce como suaves ziguezagues enjeitando o cuidado dos maiores, quando a água é mais do que elemento, mais e mais fundo, cobertos de rochas cobertos de conchas como coladas, vivendo vidas que nem se imagina ou descobre. Sãs sugestões, como pérolas achadas entre ervas esvoaçando à brisa da maré, casas de telhados quase vermelhos onde as janelas antevêem esconderijos e cordas de mar. Essas pausas corridas, perpétuos movimentos de sereias e cabelos revoltos, ali, onde a terra teima em acabar, e os faróis se amontoam enquanto os faroleiros tilintam chávenas de calor e perspicácia. São os dias de bagas e flores amarelas, os serenos pincéis que pretendem diamantes nas paletas de pastel.

A chave, por favor



Existe uma linha que percorre as ruas seguindo o halo dos candeeiros de cor laranja, um filamento de inícios de histórias, olhares fugidios ou apenas gulosos, esses sushis de batom roendo milímetros de lábios sequiosos. São percursos sinuosos, labirínticos mutantes ensinando lições proibidas. São a resposta exacta à fé e ao recato, preciosidades orientais boiando em caldas açucaradas, corredores de um hotel decadente, onde cada porta é um altar e o quarto escolhido, o prolongamento iluminista de uma blasfémia santificada.

novembro 05, 2012

Ao longe, vejo-te a silhueta



Nesse carro onde atravessaste o México e destruiste San Diego, pintei o mural das nossas vidas. E por tua causa, abandonei a arma e o maço de Lucky Strike. Ainda me obriguei a uma cela de mosteiro, mas ao fim de uma semana procurei-te na linha de fronteira. Não acreditei no que todos os criminosos de Tijuana repetiam: que eras demónio de asas brancas. Não acreditei porque não acredito em ninguém de revólver no cinto. Voltei a El Cerrito, casa por casa, árvore por árvore, sem me aperceber que afinal em Logan Heights também existem pessoas. Sentei-me no chão e esperei que o café fumegasse na chávena. No relógio, as horas tinham desaparecido.

Fecharam a catedral



Da janela do hotel, o canal é o prolongamento do meu tempo, da cadência que ficou na cama e depois de calçar os sapatos pretos de camurça, desaguou dali para fora, atravessando a ponte e rumando até à esquina de rebordos curvos, ali, onde os turcos servem jantares e algumas peças de porcelana procuram amantes de ocasião. Procuro a porta onde se acumulam traços fluorescentes e lixo feito obras de arte. Subo as escadas destruídas com o isqueiro chocalhando no bolso. No penúltimo andar ouço os gritos e as linhsa sinuosas de instrumentos de tortura. Sorrio. Subo e encontro o indiano sentado no escuro. Sabe ao que vou. Aceno-lhe com os olhos. Percorro o corredor e na última sala, porque sendo último a verdade pode estar à espreita, encontro o russo. Sentado na cadeira de braços, de sobretudo apertado até à gola, cigarro apagado nos dedos e dormitando infidelidades impossíveis. Tiro do bolso as notas, um pacote de largura insinuante. Pouso-as na mesa repleta de histórias. Entreabrindo os olhos, atira-me um resmungo morno. Sei o que quer dizer. Subo para cima da mesa, agacho-me de cócoras e tomo o meu lugar na minha história. Espero pacientemente pelo cliente que me comprará.

novembro 02, 2012

O cinzento não existe. Apenas tem sabor.



Suspenso na essência de ser ou avançar, completo as privações e todos os labirintos que couberem na palma da minha mão. A curiosidade é apenas um jogo, gatos e ratos na mesma gaveta, esperando o primeiro que adormeça. E entrando no quarto, conhecendo o veludo verde por detrás da porta, as gotas de mar na janela, o segundo à espera de ser o próximo, e eu, nariz entre o vidro e a tempestade, morno como só o frio sabe inventar, desejo a fome e a penitência, como se o monge dentro de mim despisse o hábito e renegasse a fé, pechisbeques de ocasião quando a razão foge para longe. O instante torna-se momento e depois vagar, voltas do relógio que só os antigos conhecem, ou então, as avós ao lume, esperando o sono regressar.

outubro 18, 2012

Ponteiros

Consigo contar até dez, ver uma cadeira e sentar-me, abrir um livro e separar os capítulos como quem conta cerejas. Vejo as camadas de gente nas ruas, sombreando as árvores seminuas de Outono, seguindo em frente, uma direcção só por cada um, sem sinuosos vagares ou olhos em movimentos esféricos de criança ou pássaro. Pressinto uma catástrofe, uma das que os livros sagrados decidem enviar com ira. Prevejo os gritos, talvez os do costume. Prevejo também ordens. Dedos em riste e olhares reprovadores. Reflicto e desisto. Na reflexão o tempo escapa-me. No hábito, o tempo mastiga-me. No amor, o tempo foge por entre os dedos. Quando sou eu, o tempo pertence-me.

outubro 15, 2012

Por isso, prefiro a rua ou a praça

Sinto ainda esse travo, a grandeza de um motivo, mesmo quando egoísta, como ponto de partida. Os passos desalinhados por amplitudes que as copas das árvores tornam diversas, como se cada pensamento tivesse uma pausa própria, ou as chávenas de café servissem como berlindes indicando o caminho. Gosto da opinião de um sorriso aberto, ciente do efeito de um céu azul ou outro artifício qualquer, a razão para uns ou apenas a cereja, relatando o pormenor como oração ou beliscando o íntimo com o prazer de uma almofada servindo de amante. A certeza, vista de fora como capricho, é o caminho que se conhece e se repete, procurando aquela emoção que o coração não sabe calibrar, as mesmas pinceladas de um pastel que só existe na recordação, mesmo se imaginada, a garfada que fica a meio pelo aroma. E se desconheço, com garantias, se as gratificantes ousadias da partilha aumentam o sintoma e turvam o diagnóstico, posso testemunhar o paradoxo da tristeza como vitamina da satisfação. Nessa premissa repouso as angústias e alguns dos remorsos, confiante no poder curativo de uma depressão balizada por horas marcadas. A agenda está preenchida, os contratos alinhavados e presos por uma assinatura de tinta alva, e a condição humana de sentir permanece num estado de pausa, serenamente sentada num banco de jardim esperando a manhã ou outra qualquer forma de vida que o tempo deseje encarnar.

maio 16, 2012

Mr. Skarsgård, presumo

Ao cimo da rua, um planalto de meia praceta provoca a calma no rebuliço. Sábado de manhã diferente de algum dia de feira, os passos reduzem o impulso, os olhos levantam-se ao céu e ao cimo dos prédios antigos, quando se vivia e se sacudia o bairro. Parei o carro, abri o vidro e deixei-me estar na certeza de alguma chegada ou janela aberta depois do sono e da paixão. Acendi a última cigarrilha, pois sabe-se que terminam sempre quando se necessitam. A necessidade é um conceito traidor. Na metade da rua à minha frente, vestia um fato claro, desses quase sem recorte ou solenidade, subia com passo regular, talvez algum cansaço. Os óculos de sol castanhos adivinhavam a diferença ou estrangeirismo. Num momento, apoiou-se à parede e olhou para o cimo. Sorriu num esgar, endireitou-se numa pose quase de princípe e percorreu os últimos metros com a dignidade dos de outrora. Rodeou o carro pela esquerda, abriu a porta e entrou sem palavra. Depois de um suspiro, obrigatório digo eu, virou-se para mim, estendeu-me a mão e apresentou-se. Apertei-lhe a mão, parti a cigarrilha, o que restava, em dois e dei-lhe a metade apagada. Os olhos brilharam-lhe enquanto aceitava a chama. Aspirou profundamente, tossiu as réstias do cansaço e com um semblante renovado disse.
- Esperam-nos no armazém número 2. O um está irremediavelmente perdido. O cubano e o alemão chegaram antes de nós.
Rodei a chave, meti a mudança e acelerei rua abaixo sempre na sensação de atropelar o último transeunte. Antes do semáforo, abri o porta-luvas e apontei a automática. Ele sorriu e recusou com a palma da mão.
- Prefiro uns carapauzinhos e um copo de branco.

maio 15, 2012

Esperamos, nós e Tim Robbins

Sobre um bloco de pedra, daqueles que se usam para acrescentar terra ao mar, espera-se. De pé, de cócoras, sentado como se um sapateiro esquecido encolhesse os ombros ao amontoar de sapatos à porta da sua oficina. Espera-se algo da cor do bloco de pedra, alvo como se o novo tivesse cor. Falam-se línguas quentes, rápidas para o compêndio ou a tradução, a rapidez própria da vida se sentida e amada. Laivos de francês, como se algumas palavras fossem o barro para segurar a argamassa. Somos 3, quase 4 se o fulano de panamá branco e calças pelo artelho. Somos 3 sem sabermos quem somos. Cada um inventa o nome que quiser. Hoje quatro letras, amanhã apenas três. E apelidos se servirem de nome próprio. Hoje esperamos, amanhã teremos nomes de dois nomes escritos e nunca verificados. Amanhã, se algum deus quiser.

maio 11, 2012

Bernardo Sassetti, vou procurar-te nas ruas e no cimo dos prédios

Bernardo, falaste comigo pelo teu piano e garanto que os teus dedos me percorreram a face e os braços. Esses dedos que nunca vi, mas que senti no pescoço e no espírito. Bernardo, foi pelos teus dedos que conheci Alice, que lhe soube as ladaínhas e os amuos, quando zangada se sentava no chão e esperava a tormenta passar. Bernardo, foste tu o responsável pelo meu olhar longo e sustenido. Bernardo, quando chegar a casa vou ouvir-te e voltar a sentir esses teus dedos. Verás, verás a alquimia de que ainda és capaz.

Johnny Depp ainda se lembra da porta de vidro verde

Johnny Depp empurra a porta, repara no verde do vidro fosco e agradece a penumbra. Senta-se no terceiro banco a partir da rua, e mesmo quando se pensam idiotices, repete o gesto já sentado, num jeito acostumado de toda a gente. Johnny Depp articula as boas tardes e pede dois shots de bourbon. Um olhar em volta garante-lhe abrir a caixa quadrada das cigarrilhas. Rola-as com a ponta do indicador e escolhe a terceira a contar de si próprio. Tira o isqueiro do bolso do colete e acende-se. Johnny Depp agradece os copos pousados no balcão e com o mesmo indicador que rolou as cigarrilhas, apanha a gota que teima em escorregar, chupando o dedo, satisfeito. Johnny Depp sorri ligeiramente, pega no primeiro shot, se entender que o primeiro é o que encontraria quando entrasse e se estivesse à sua espera, fosse a razão que fosse. Johnny Depp bebe o primeiro shot lentamente, como se o sabor fosse obrigado a confessar-se. Antes de pousar o copo sente a garganta aveludada e encandescente. Johnny Depp sente um arrepio que lhe propaga prazer em ondas analógicas. Puxa o fumo avaliando a subtileza dos músculos dos lábios e expele uma baforada aromática. Johnny Depp sente-se perfeito. Como se a perfeição fosse a melhor das sensações. Olha para o segundo shot e num momento de rara intuição, antevê o último. Imediatamente recorda-se de conceitos, a última ceia, a última refeição do condenado, o último adeus na estação de comboio, o último dos moicanos, a última tarde. Johnny Depp sorri como só ele sabe, levanta-se, pousa uma nota amarrotada, articula as boas tardes e sai. Não só reparou no verde do vidro fosco, como ainda sente o travo misturado de bourbon e cigarrilha. Após uma brevíssima pausa, Johnny Depp decide o lado direito da rua. O último shot, ou o segundo, ficou no balcão. Ainda lá está.

O meu dedo apontador está cansado

Ontem, quando olhava em frente, senti o azul do dia como esse nome que se chama num grito, obrigando a meia dúzia de sobreaviso a virar para trás e confirmar alguma coisa. Hoje, olhando em frente, também sinto. Sinto em cinzento, um cinza ora aberto ora fechado, dependendo do segundo ou minuto que eu decido, transportando-me para alguma coisa ou apenas aqui e sem trajecto para já. São as pequenas grandes coisas que merecem ser escritas, ignorando a substância e aproximando o fósforo aceso aos relatórios, linhas de teleponto e outros encadeamentos de palavras absolutamente inúteis e degradantes. E são as pequenas coisas as que se guardam no bolso com desejo, uma chave, uma bola de matraquilhos, uma caneta, um pedacinho de papel bem dobrado, pevides ou pedras de sal. Nada mais valioso e simples. Nada que provoque absolutismos ou revoluções de sentido único, nada que se catalogue, etiquete ou seja alvo. Nada que seja fatiado em patamares ou deitado em altares. Apenas, e este apenas com alguma graça ou zombaria, alma, espírito e a essencialidade de um pôr do sol ou de uma maré tardia.

abril 27, 2012

A queda e as consequências

Por debaixo da chuva, dos passeios molhados, dos passos com pressa apertados num agasalho, por debaixo do dia que existe no calendário e no ponteiro ritmado dos segundos, guardam-se círculos mornos e húmidos como o labirinto aberto depois da pedra mergulhar no lago. Nas margens, irrompem frutos, alguns proibidos, sumarentos na forma de sorver dos lábios carnudos, onde a demora é doutrina e quase religião. Nesses altares de eternidades, esquece-se o poder e a inveja, flora o egoísmo de todo o prazer num só momento, estrada recortada rumo à clareira.

abril 26, 2012

Esconde-se numa sala ampla, persianas quase fechadas permitindo apenas algum diurno e sussurrares de rua. Vagueia entre um sofá vermelho, pele gasta como numa cama de motel ou confessionário pascal, e a cadeira de metal, cirúrgica de pose e posição. Anda, arrasta o balanço de fera prisioneira ou cativa, ronronando a espera com dentes de sabre. Com os dedos, colhe flores em cada prega do seu corpo, vincos forçados pelas unhas lâminadas de rubro. Faísca os olhos contra a penumbra, sente falta de relâmpagos que lhe massacrem a íris e ataquem o cérebro, deixando-a dormente e submissa. Cada estalar de madeira apodrecida sobressaltam-lhe a medula. Resiste ao sono e revesa o desejo e a anuência. Quando chegar, o momento, quer saber-se inteira.

abril 24, 2012

8 ou 9 ou 10

Preferi atravessar a rua e espreitar o outro lado, como se fosse um gato, como se farejar fosse o meu mistério e perdão. Procurei quem se afastou nesse passo apressado roçando as paredes dos edifícios, um passo escurecido pelo início da noite, um passo vestido de preto, todo preto, numa viuvez apressada como quem procura e foge antes de encontrar. Vagueei como é meu natural, mãos nos bolsos, frio na cara, olhos brilhantes de tanto. E sem ver, olhei as luzes nocturnas, as que desenham recordações e esquadrias cartografadas na memória, olhei-as numa gulodice desenfreada, calada, curiosa na exacta medida que um beijo é salvação e uma noite, salva-vidas.

abril 23, 2012

A meio do bairro

Devagar, debaixo das janelas e dos olhares de meio dia, encerra-se a manhã e começa o dia, lento como só ele deve ser mastigado, com árvores de quando em quando, justificando o que se esconde ou não se quer ver, o furtivo de um desejo quando é mais que desejo por ser violento e repentino. Devagar pelo meio do passeio, sem querer ser mais um nem recusar esse papel, cigarro crepitando como lareira, fumo entrelaçado no arabesco que contém, sede abafada pelo passo caminhante, sede guardada num bolso já carregado onde esperam os prazeres, a vez de quem se mostrar afoito e entregue a si mesmo.

março 27, 2012

Um conto, um cento

Os momentos que antecedem grandes decisões, proporcionam fenómenos químicos e todas as teorias que os estudiosos do cérebro sabem enunciar. São páginas e páginas escritas de alto abaixo, palestras e conferências doutas, definições matemáticas cujo causa efeito não é simples de compreender. E tudo se passa dentro da pessoa, nas suas entranhas revoltas, revoltosas por meia dúzia de unidades de pagamento, como se a vida fosse uma caixa registadora difícil de saciar. Como se pode quantificar a existência e por quanto? Tudo vale? O valor das coisas é uma das coisas mais estranhas que o índice encerra, e mesmo assim, insistimos na valoração de tudo e mais alguma coisa, como se cada cereja de um cento fosse mais que outra qualquer. Chamam-lhes borboletas, coisas esvoaçantes cativas no duodeno. Chamo-lhe fatalidade... Ou, estupidez.

março 17, 2012

Por causa de um labirinto


Tarde, beije, azul e todo o cinzento que caiba sem manchar, as multiplicações feitas ruas e a questão onde consta um fim, cabelos soltos, botas ou ténis vermelhos de pano, os ícones ao virar a esquina, lentos e expectantes, chávena de café na mão, algum doce ou a gulodice de esperar mais logo, quando a noite trouxer o imaginário e com ela, anjos e demónios unos, preferidos a todas as visões, ritmados pela influência que transportam na pele até montanhas ou apenas edifícios altíssimos, a escalada urbana que um beijo sabe começar e deixar qualquer humano perto do divino, como se cada deus habitasse a palma da mão e a ponta dos dedos. Depois, no cimo dos telhados, procurem-se as pernas que baloiçam e segredam o lugar de cada amante.

março 09, 2012

Do último degrau vejo o teu primeiro dia


Morno. Muito morno. O confesso vagar, perdido em ruas alinhadas onde me desalinho, onde me deito, me banho, suspendo a condição de pessoa e torno-me gente, árvore, escondo uma guloseima no bolso, sorrio antes de verter alguma gargalhada que me escorre a cara e cintila os olhos, ganho vontades de menino apesar do tom grisalho que gosto de olhar. Morno ao pisar cada centímetro, ao pormenor geométrico de algum recanto, o recorte do sol nos degraus, deuses e deusas que se escondem por detrás das janelas, tentando na penumbra actos divinos que só eles querem. Sou suave e rouco ao mesmo tempo, essa medida antiga dizendo os números e gastando os soalhos, mesmo se os lençóis saibam apagar as rugas, os minutos e algum ontem tresmalhado.

Não sei bem como é que fiz isto

O encanto do inesperado, é a sensação de tudo ser possível, mesmo se a razão o deseje impedir ou a lógica decida arrasar o sonho. E tudo acaba por ser tão frágil, ou melhor, inconsequente, quando se substitui um cachecol confortável por um galhardete de pescoço, um sofá por uma bancada, e a análise por uma imaginação fértil, onde existem unicórnios e felinos, ondulando em uníssono por um instante enfeitado a lantejoula, mesmo se o ouro é apenas dourado.

janeiro 21, 2012

Por décimas de segundo



Confesso-te os dias mais compridos, aqueles que terminam sem terminar, onde, em praças com o rio adiante se transformam os sentires e as abóbadas clericais, as que se mantêm vivas por duvidarem do seu poiso e da hierarquia onde foram geradas. Lembras-te a primeira vez? A que te contou o poder e a emoção? Foi o caminho, a casa redonda, a chaminé colhendo o céu e todas essas ervas, benignas e enternecendo antepassados, curvadas ao vento da tarde e da manhã, cordialidade de uma porta aberta, esperando que o mar rebente dentro de casa.

Vidros embaciados



Sentindo as meias e os sapatos, sinto também a linha de horizonte da cidade, esse novelo que me arrasta e me retira algo morno para me atirar ao frio, como se o gelo me entregasse forças e palavras. O segredo é estar sempre pronto, de isqueiro e óculos à mão, um par de notas de algum banco e as canções. Provam-se cafés e cigarros, não necessariamente por esta ordem, escolhem-se beijos da ementa, beijos que podem ser braços e dedos revolvendo o cabelo e atingindo o pescoço, decidem-se os trajectos e as luzes de algum aeroporto nas imediações, porque palcos são sempre poucos. Lembram-se rotas da seda, todas as samarcandas que caibam num quarto de hotel, de preferência num terceiro andar. Se projectar uma esquina da janela, juntamente com os mortos-vivos de ocasião, encostando-se aos carros estacionados, imaginados pelos candeeiros de rua como se vissem coisas de um passado distante e esfomeado. Tantas curiosas contradições, como um guarda-livros num cubículo às tantas da manhã, emoldurado pelo fumo, um certo aconchego impossível de ultrapassar.

janeiro 20, 2012

Misericórdia é nome de punhal



Por tanto e por isso, por antecipar os sorrisos e os orgasmos que se encontram nessa rua, pelas copas das árvores, nocturnas, desfiando o fumo e as garrafas vazias, por toda e qualquer decisão isenta de consequências, por saber e desconhecer amanhas e madrugadas, por conhecer o caminho para o pão matinal e os lugares que nunca fecham, por falar as palavras chinesas e russas que bastam, pelas folhas dos livros que se gastam, pelas folhas escritas que se desfazem ao primeiro travo, pela sorte, o azar e o sol por detrás da ilha, por me saber e saber o que lá está, pelo tempo que pede para não ser guardado no bolso.

janeiro 11, 2012

Cruel

Entre algo de Índia e o betão algures em L.A., estou ciente de ruas pejadas de prédios centenários, tijolo bem à vista, árvores imaginadas à distância de 12 metros cada, mais bares do que se possam beber e uma fauna mais intensa que mil Áfricas. É cruel este mistério do vazio entre dois pontos, o tal segmento de recta, ou um mutante pois descrevem-se demasiadas curvas para unir dois pontos. E mesmo chegados a essa facilidade quase extrema de encomendar o futuro no próprio dia, existe um pegajoso limite entre o impulso e a consequência, travão orgânico de tonelagem insuportável. Num mundo decalcado do pior entre os maus, a sede de sentir o bolso cheio determina o passo seguinte ou o pé descalço mesmo calçado. Aponto através da mira, viso variados alvos numa furiosa carnificina enternecida por um dia de sol ou um café que prolonga o palato. E embalado, desprovido de crueldade suficiente, espero a próxima carruagem, mesmo se tiver no bolso a chave.

janeiro 09, 2012

Acariciar uma escrita

Há bastante que não escrevo. Porque há um que, quebradiço, impedindo a pena ou a tecla, sabe-se lá por quanto, se por demasiado Tejo, se por demasiado sorriso contido, ou então por um estado de sei lá o quê, que mina e disturba, tornando elástica a vontade, até por montras e passeios. Faz-me falta o acre e o doce, algum choque térmico, as mãos geladas e o passo até um café próximo, procurando olhares ou outra coisa qualquer que adoce o a espuma de leite. Faz-me falta aventura, sem capa nem espada, talvez horas tardias e candeeiros de rua acesos, ruas acabadinhas de amanhecer, pão quente que se termina na cama rumo ao meio dia. Longas são as premissas, halls de hotéis, praças e pontes, edifícios a arder de tanta excitação. Prolongar uma semana em um mês e esse mês em um ano. E depois... E depois, rever a matéria dada e expulsar demónios e anjos, como um exorcismo de hora marcada, como se o tédio e a próxima página vivessem em comunhão de fatalidade numa capoeira ferrugenta. Pergunto-me se bastaria um volume, algo hermético onde guardasse a minha essência. As camisas, os livros de cabeceira, um terabyte de mp3, o tabaco, os sapatos, aqueles filmes, o portátil, o isqueiro e os óculos de sol. E os óculos de ver ao perto. Será que a vida tem excesso de peso de bagagem?