abril 27, 2012

A queda e as consequências

Por debaixo da chuva, dos passeios molhados, dos passos com pressa apertados num agasalho, por debaixo do dia que existe no calendário e no ponteiro ritmado dos segundos, guardam-se círculos mornos e húmidos como o labirinto aberto depois da pedra mergulhar no lago. Nas margens, irrompem frutos, alguns proibidos, sumarentos na forma de sorver dos lábios carnudos, onde a demora é doutrina e quase religião. Nesses altares de eternidades, esquece-se o poder e a inveja, flora o egoísmo de todo o prazer num só momento, estrada recortada rumo à clareira.

abril 26, 2012

Esconde-se numa sala ampla, persianas quase fechadas permitindo apenas algum diurno e sussurrares de rua. Vagueia entre um sofá vermelho, pele gasta como numa cama de motel ou confessionário pascal, e a cadeira de metal, cirúrgica de pose e posição. Anda, arrasta o balanço de fera prisioneira ou cativa, ronronando a espera com dentes de sabre. Com os dedos, colhe flores em cada prega do seu corpo, vincos forçados pelas unhas lâminadas de rubro. Faísca os olhos contra a penumbra, sente falta de relâmpagos que lhe massacrem a íris e ataquem o cérebro, deixando-a dormente e submissa. Cada estalar de madeira apodrecida sobressaltam-lhe a medula. Resiste ao sono e revesa o desejo e a anuência. Quando chegar, o momento, quer saber-se inteira.

abril 24, 2012

8 ou 9 ou 10

Preferi atravessar a rua e espreitar o outro lado, como se fosse um gato, como se farejar fosse o meu mistério e perdão. Procurei quem se afastou nesse passo apressado roçando as paredes dos edifícios, um passo escurecido pelo início da noite, um passo vestido de preto, todo preto, numa viuvez apressada como quem procura e foge antes de encontrar. Vagueei como é meu natural, mãos nos bolsos, frio na cara, olhos brilhantes de tanto. E sem ver, olhei as luzes nocturnas, as que desenham recordações e esquadrias cartografadas na memória, olhei-as numa gulodice desenfreada, calada, curiosa na exacta medida que um beijo é salvação e uma noite, salva-vidas.

abril 23, 2012

A meio do bairro

Devagar, debaixo das janelas e dos olhares de meio dia, encerra-se a manhã e começa o dia, lento como só ele deve ser mastigado, com árvores de quando em quando, justificando o que se esconde ou não se quer ver, o furtivo de um desejo quando é mais que desejo por ser violento e repentino. Devagar pelo meio do passeio, sem querer ser mais um nem recusar esse papel, cigarro crepitando como lareira, fumo entrelaçado no arabesco que contém, sede abafada pelo passo caminhante, sede guardada num bolso já carregado onde esperam os prazeres, a vez de quem se mostrar afoito e entregue a si mesmo.