novembro 29, 2012

Ocular




Digito e por essa causa, virtuo. Pertenço a toda e ao restrito, desventro-me e assemblo-me, projecto o dever e o devir, rodando em mim mesmo, sobre o meu ente no gesto de substituição do divino pelo resto de uma divisão, eu pela consciência, eu como cume e labirinto oculto pela superfície. No movimento atinjo, na pausa renovo, no reinício aprendo. A junção dos sentidos num só, como se a fusão fosse um método religioso, circulando as cores como veículos e os órgãos na exacta medida da sua imponderabilidade. As coisas são objectos ao sol e emoções no escuro. Porque a claridade e escuridão sentem-se, em simultâneo, em contacto com a impressão digital. Uma que se torne causa.

novembro 27, 2012

Atitudes e apetites



Ao descer a rua das montras de vidros tocando o passeio, penso e existo nas três esquinas que do lado esquerdo me desafiam e atrevem-me a alma. Decido esquecer as vírgulas e outras hesitações. O que sai de dentro não deve ser tocado. Como um passo seguindo outro, calçada de cubos assimétricos, revelo os rócocos nas esquadrias e aqueles cetins ou linhos sobre meios-manequins, a forma perfeita de me lembrar de algo. Na primeira esquina exijo-me o título, talvez a capa. O cheiro também. Não se trata de odores nem fragrâncias. Cheiros, assim, crus, dolentes e demorados. Como se a intensidade fosse um minuto inteiro. Acredito numa sensação de recordação e sem remorso atiro-me em frente. Regresso a este tapete de ontem e hoje, impossíveis de separar. Na segunda esquina, faltam os ganchos e a fita cola nunca o foi. O fascínio já lá não está. Adiante. Algum cauteleiro, senhoras de cabelo suspenso, elegâncias e sujidades à mesma mesa de lanche. Alguns dourados. Demasiados sinais de doença. Uma doença arrastada, vivida, resignada em cada refeição, em cada sono, em cada véspera de Natal. Vejo a terceira esquina. Está lá como uma sentinela sem tempo. Há tanto tempo. Paro, olho o chão e a ponta efervescente da bota negra de uma tropa que não o chega ser. Aperto o fecho do blusão até sentir o pescoço fechado. Passo a mão no cabelo aumentando a crista. Sorrio sem que os olhos por detrás dos óculos negros sorriam. Viro à esquerda como um bom soldado faria e de pé em riste, rebento o vidro da montra sem me proteger. Sinto o corte. O fio vermelho compõe-me. Atravesso a rua, faço uma carícia num bebé de carrinho e subo rumo à chávena reconfortante de chá.

Doutrinas



Doze caules feitos samurais, perdidamente apaixonados e sem dote para as filhas de porcelana de doze artesãos. As agruras têm sempre um número, um algarismo seguido de outro e mais outro, álgebra descodificada pelos santos sem religião, que não usam hábito nem virtude, que não conhecem a noção de pecado e abrem os braços com a liberdade de quem acredita no voo, léguas e milhas de campos onde crescem verdes rebentos de uma chuva persistente e mimada. São quatro as divindades que assistem aos fenómenos da vida. Não têm nome. Não precisam. Sabem, com rigor, as mil faces de cada samurai, as cinco mil formas do olhar de uma porcelana. Não se repetem, nem por uma vez: as sabedorias e as formas de ser mulher.

novembro 26, 2012

Ficção não ciêntifica



Seremos as vozes e os lamentos, as discórdias e todos os muros, os tijolos que construiram os fornos e as pás que recolhem as cinzas. Seremos o restolho e a colheita, por essa ordem, porque a numeração está inversa, endemoniada ao serviço de aritméticas perversas por resultados plurais. Seremos autónomos na cólera e na malária, ou cobertos de escamas num cretáceo fabricado com fibra óptica e roldanas. Seremos gritos, submissões, copos cheios e nódoas. Seremos as flores manchadas, arranjos perfeitos de bombardeamentos com hora marcada. E nas reuniões, entre calças vincadas e risco perfeito nos cabelos, surgirão debaixo das mesas, centopeias com viscosas decisões. Seremos então, fósseis.

novembro 22, 2012

Esperando senhores importantes

Na varanda, com vista para os ditadores, havia uma nesga por onde se via a porta do avião. Tinha o copo quase cheio. No parapeito todas as garrafas que quisesse, o suor que pingava, os vestígios habituais de sangue e os buracos de bala nas paredes. Com o sol a pique, o dia era uma dia normal, naquela doutrina específica que afirma o dia como um grupo de vinte e quatro horas, algumas escuras, outras de claridade. Aqui, a claridade era como a escuridão, uma exactidão difícil de conceber. A porta do avião continuava fechada. A risca vermelha ao longo da fuselagem, intocável no rebordo da porta. Alguns guardas de óculos escuros e metralhadora, o trivial. Bebi mais um gole e preparei-me para outro cigarro. No chão restos de maços ameaçavam a espera. Mais um olhar, a porta, encaixe de esquadro na superfície brilhante do avião. Olhei o copo e bebi o resto de uma só vez, adiantando uma impaciência própria de sol lancinante. Tinha no bolso as duas balas de ouro oferecidas no primeiro dia. Gostava de sentir o seu peso no bolso. Emprestavam-me valor. Ou alvo. Não sei ao certo a verdade. Tentei-me pentear mas senti uma pasta de cabelos encharcados e em desalinho. Típico. A cadeira, demasiado pequena para a arma, parecia uma miniatura de casa de bonecas. Sorri. São coisas que enternecem antes de ver o cérebro saltar em gomos.

novembro 21, 2012

Três pancadas com 3 segundos de intervalo



Na contenção, mãos paradas e dedos imóveis, desço o olhar submetendo a hora ao cardeal, ténue alvoroço por detrás da porta enferrujada, camuflada pelos contentores de caracteres cirílicos, longe do comum e muito além do mortal. A corrente do relógio estremece e toma o lugar do pêndulo. Os lábios têm sabor a sangue, como se a saliva fosse definitivamente espessa, textura sinuosa que mantém a sede unida ao prazer. Os passos querem-se vagarosos, desejam-se quase parados, num arrastar demente em direcção a cada recanto onde se desenham cruzes de todas as religiões, essas religiões onde a multidão é a lâmina de um punhal de cabo escaldado. Com o cabelo em desalinho, ombros ensopados pela chuva, o sabor da derradeira maldade permanece intacto. Tão intacto como a palidez de uma criança.

novembro 17, 2012

Aula

As palavras são tão permissíveis, tão atrevidas de memória e despidas de sabor, por pretenderem enfeitar em vez de dizer. As palavras que se dizem, que tu dizes, que eu ouço, que eu digo, baixinho, que eu grito desesperado, que decido entregar por desvario, as palavras presas por filamentos, ditas entre chocolates e trufas, mastigadas de fumo e vinho, as palavras da concordância, da definição carmesim, dos rituais semi-apagados em pergaminhos com sabor a sal e esgoto, as palavras em latim de todas as épocas. Cada letra é um prego na cruz de todos os senhores, senhoras de noite, senhores sem género ao permitir devaneios e risinhos nervosos. Cada letra, cada sílaba, acre, ácida de tanto amargo, escarro de tanto doce, tanto arabesco pintalgado de flores sem cheiro, sem cor, sem amor. Palavras sem sexo, sem orgasmo, palavras sem desejo nem prazer, ou apenas sem vontade. Palavras que se dizem pelos candeeiros ligados em cada sala iluminada e escurecida de carreirinhas de letras em marés absortas e obtusas, chaminés altas de fábricas de palavras, arrumadinhas em caixotes, com carimbos de envio para todos os destinos que se imaginem... menos a alma, mesmo se cheirando a lama.

novembro 13, 2012

Partindo pausas



Secretos restolhos e areais,
cestos de piquenique levados pela maré,
zumbidos à flor de uma pele
na palidez frágil de uma cintilação,
são as cadências
e nuvens feitas de almofada
onde o infantil tem o trono
e a rainha só se recorda dos confeitos amarelos.

Além
na falésia em forma de mesa,
permanecem os druidas desnudos,
sinal de tempos e relógios sem ponteiros,
ferrão espetado na linha de horizonte,
onde o sol já não está
e o laranja ainda existe.

Ruas de portas e números repetidos



Despido, à janela, situando-me tanto nesse quarto andar como no passeio ou no bar da esquina, rigorosamente na esquina, entendo a espera como o passo fulcral do prazer. As vozes, as que deixo entrar, cercam-me de dedos apontados, lençóis esperando calor, copos que se querem meio cheios, deveres e brincos de madre-pérola espalhados por entre os papeis, cinzeiros cheios. Na rua, no passeio por debaixo das árvores sussurrantes, os degraus esperam a pausa ou o vício, o assassino de medo em riste, a mesma espera, os embriagados de rumo incerto descobrindo curiosidades alheias como se o escuro se tratasse com xarope. Na esquina, rigorosamente na esquina, já não existe nada. Tiraram o bar, todo, levaram-no para às escondidas o despirem e o meterem na cama, um sono que não acabe, um sono que faça o esquecimento acordar. O vidro da minha janela tem desenhada a minha respiração. Traço-lhe uma decisão. Alguém, os passos incertos de algum amante, olharão para cima e reconhecerão a senha. A porta está aberta. Sempre esteve.

novembro 10, 2012

Carnegie é antes da próxima esquina



Enquanto espero olho a ponta das calças amarrotadas, aquele afunilar do joelho ao sapato, pretendido na fluidez de uma avenida de luzes ainda acesas, descendo de um pedestal até à praça vazia que ainda há pouco abarrotava de passeantes e gabarolas, esses de cabelo revolto à custa de toques de pulso, cigarros acesos porque sim, portas abertas chamando incautos. Toco com dois dedos no copo, ensaiando movimento que entrechoque o que resta das duas pedras de gelo, pé apoiado nesse tamborim cor de vinho, goles gulosos que daria se fossem menos horas, se as soubesse subtrair e agitar a aritmética do tempo perdido, aquele sorriso feito algoritmo, como se o barman tivesse algo a esconder e aquela mulher, que apenas lhe resta fatalidade, conhecesse os segredos de todos, os que se demoram e os demais, rápidos no prazer e como dobram a esquina. Demorar é o verbo, a coluna jónica do desejo, a dois, o par elevado à condição de único, divindades a meias santificando o prazer à vez. Por cima da última fila de garrafas jaz aquela gravura que insisto homenagear Turner ou algum anónimo, efeito de um ópio envelhecido sem odor nem maleabilidade, mas que se fuma por obrigação. Na esteira, uma gasta partitura. Serve-me de consolo como alguma almofada, se a houvesse. Vejo-a de linhas alinhadas, pontinhos negros ensaiando escadas, a derradeira versão de um testamento roubado em casa de ourives. Sigo-a pelas ruas que circundam o bairro dos quartos alugados, revejo-me no matraqueio regular dos seus saltos altos, serpenteio pela costura da sua meia, colheita preferencial do meu amor que será fumo daqui a duas horas. Serei fiel. Mas apenas enquanto as duas horas demorarem. A demora. A pressa de esperar num banco corrido de madeira numa estação de comboio, malas roçando o chão e esses apressados de farda e boné controlando bilhetes e intenções. Subo a carruagem número sete, amarrotando a ponta da calça, aquela junto ao sapato. Piso a alcatifa adoentada e sigo a geometria básica de um corredor sem extensão. Paro à porta do compartimento vazio, cubículo que tresanda a tabaco e suor. Sento-me revolto em cansaço, moído como farinha, e avisado em demasia dos perigos da fronteira e dos viajantes de última hora.

novembro 09, 2012

Debaixo da mente e à beira da cela

Curvilíneos solares em abóbodas onde se movem as linhas do dedo divino, esse divino chamado ontem, transformação de um medo ou de circulares fechos de contas antigas, uma provocação gerida pelos vulcões, outrora apagados, sediados em alguma cafeteria japonesa onde o tapete rola submisso, soturno, empalidecendo esgares e apetites, daqueles que não terminam, dos que desaguam em hóteis de néon incompleto e camas desfeitas, porque o tempo não demora e os gestos exigem atenção. Somos peças de algemas, encadeados pelo abismo das nossas escolhas, varandas nocturnas onde se espreitam os amantes do prédio próximo, relevos de pêndulo contínuo enquanto a manhã não regressa. Ao longe o comboio, as janelas trémulas de cada passagem, vítimas de horários de conveniência. Já não existe o romântico matraqueio do carril, algum mordomo de ocasião anunciando o sabor e o pecado. Já se esqueceram os furtivos beijos em algum apeadeiro de província, ignorados e motivo de conversa por semanas. Sentado ao balcão, hesitando entre o café frio e a cerveja choca, observo mais do que vejo. E por isso, sou voyeur de mim próprio.

Pretendido



Nesse então,
curiosa cadência
ao ser um
e depois mais outro,
sorvem-se boreais
desaguando na turva
e elementar
copa de árvore,
caduca de um Outono demorado
como se cada erva
e cada chávena de chá,
violentassem a espera
e o odor a sossego.

O perigo de todos os dias,
suaves ou pedregosos,
é a quantidade,
ínfima,
de sangue que impregna
o beijo
e a vontade.

novembro 08, 2012

Onde a falésia decide a planície



Saltos, cabriolas e gritos submersos em areia molhada e cores de manhã infantil, doce como suaves ziguezagues enjeitando o cuidado dos maiores, quando a água é mais do que elemento, mais e mais fundo, cobertos de rochas cobertos de conchas como coladas, vivendo vidas que nem se imagina ou descobre. Sãs sugestões, como pérolas achadas entre ervas esvoaçando à brisa da maré, casas de telhados quase vermelhos onde as janelas antevêem esconderijos e cordas de mar. Essas pausas corridas, perpétuos movimentos de sereias e cabelos revoltos, ali, onde a terra teima em acabar, e os faróis se amontoam enquanto os faroleiros tilintam chávenas de calor e perspicácia. São os dias de bagas e flores amarelas, os serenos pincéis que pretendem diamantes nas paletas de pastel.

A chave, por favor



Existe uma linha que percorre as ruas seguindo o halo dos candeeiros de cor laranja, um filamento de inícios de histórias, olhares fugidios ou apenas gulosos, esses sushis de batom roendo milímetros de lábios sequiosos. São percursos sinuosos, labirínticos mutantes ensinando lições proibidas. São a resposta exacta à fé e ao recato, preciosidades orientais boiando em caldas açucaradas, corredores de um hotel decadente, onde cada porta é um altar e o quarto escolhido, o prolongamento iluminista de uma blasfémia santificada.

novembro 05, 2012

Ao longe, vejo-te a silhueta



Nesse carro onde atravessaste o México e destruiste San Diego, pintei o mural das nossas vidas. E por tua causa, abandonei a arma e o maço de Lucky Strike. Ainda me obriguei a uma cela de mosteiro, mas ao fim de uma semana procurei-te na linha de fronteira. Não acreditei no que todos os criminosos de Tijuana repetiam: que eras demónio de asas brancas. Não acreditei porque não acredito em ninguém de revólver no cinto. Voltei a El Cerrito, casa por casa, árvore por árvore, sem me aperceber que afinal em Logan Heights também existem pessoas. Sentei-me no chão e esperei que o café fumegasse na chávena. No relógio, as horas tinham desaparecido.

Fecharam a catedral



Da janela do hotel, o canal é o prolongamento do meu tempo, da cadência que ficou na cama e depois de calçar os sapatos pretos de camurça, desaguou dali para fora, atravessando a ponte e rumando até à esquina de rebordos curvos, ali, onde os turcos servem jantares e algumas peças de porcelana procuram amantes de ocasião. Procuro a porta onde se acumulam traços fluorescentes e lixo feito obras de arte. Subo as escadas destruídas com o isqueiro chocalhando no bolso. No penúltimo andar ouço os gritos e as linhsa sinuosas de instrumentos de tortura. Sorrio. Subo e encontro o indiano sentado no escuro. Sabe ao que vou. Aceno-lhe com os olhos. Percorro o corredor e na última sala, porque sendo último a verdade pode estar à espreita, encontro o russo. Sentado na cadeira de braços, de sobretudo apertado até à gola, cigarro apagado nos dedos e dormitando infidelidades impossíveis. Tiro do bolso as notas, um pacote de largura insinuante. Pouso-as na mesa repleta de histórias. Entreabrindo os olhos, atira-me um resmungo morno. Sei o que quer dizer. Subo para cima da mesa, agacho-me de cócoras e tomo o meu lugar na minha história. Espero pacientemente pelo cliente que me comprará.

novembro 02, 2012

O cinzento não existe. Apenas tem sabor.



Suspenso na essência de ser ou avançar, completo as privações e todos os labirintos que couberem na palma da minha mão. A curiosidade é apenas um jogo, gatos e ratos na mesma gaveta, esperando o primeiro que adormeça. E entrando no quarto, conhecendo o veludo verde por detrás da porta, as gotas de mar na janela, o segundo à espera de ser o próximo, e eu, nariz entre o vidro e a tempestade, morno como só o frio sabe inventar, desejo a fome e a penitência, como se o monge dentro de mim despisse o hábito e renegasse a fé, pechisbeques de ocasião quando a razão foge para longe. O instante torna-se momento e depois vagar, voltas do relógio que só os antigos conhecem, ou então, as avós ao lume, esperando o sono regressar.