março 20, 2013

O bilhete vermelho



Parado junto a uma porta qualquer, seja esse restaurante vazio ou o café às escuras, os bolos esperando ser de ontem, o pó de café repousado e silencioso, as cadeiras imóveis, frias depois da multidão desaparecer. Algures na penumbra, cumplicidade de algum candeeiro de rua, tardio como só eles sabem, um jornal esquecido ou um recado onde o amor se recusa. Sossegado, talvez por me sentir acompanhado pelo silêncio das formas e das sombras, permito-me sorrir e engendrar fugas para a frente. A rua desce suavemente debaixo das árvores, precipita-se em algumas dezenas de metros como se fosse a pique, espraindo-se depois até a margem ser de água. Empurro a perna de encontro a parede, nesse gesto de balanço que implica decisão. Não olho para trás onde a curva é esquina. Não me fazem falta emoções de hora e meia. Incito o passo numa cadência que ouvi em algum lado, uma linha de baixo como moínha açucarada, arrepio de sentidos afinados. Encolho os ombros às casas senhoriais com o mesmo desdém desenhado pelos ferros entrançados do imenso mercado antigo, vidas e histórias, rostos e olhares suspensos pela recordação ou sonhos deslocados pelo tempo. Deixei de estranhar as ruas desertas, os semáforos piscando em alertas desconhecidos, a sensação de sózinho multiplicada por muitos. Ao longo das lojas, das praças numeradas, de sítios que um dia tiveram outro nome, vou declamando ladaínhas de apelidos e instantes, afinal o sal dos pensamentos. No momento da decisão, as três avenidas são as paralelas de algum mito ou civilização fora de moda. Sabia, desde sempre, escolher a da direita. Ao fundo a estação. A carruagem de luzes preocupadamente apagadas. Percorro as centenas de metros sem palavras e de ideias desligadas. Procuro, em antecipação, uma porta aberta, algo que não me abrande a passada. No cais, ladeado por portas de vidros indiscretos, a carga sistémica dos carris. Sem escolha, forço as portas enferrujadas da automotora. Habituo-me aos contornos e sento-me no lugar. Espero. Como se a partida fosse uma fatalidade. Ou um dever.

março 14, 2013

Johnny Sundown



Como uma segunda pele, senti, quando fechei a porta do carro. Agarrei o volante e deslizei os dedos ao longo desse circular deleite, não imaginando melhor substituto da pele de uma mulher. Senti na cara os resquícios da típica poeira das estradas mexicanas, e interroguei-me se o desvio tinha valido a pena. Afinal, se o destino fosse à vista desse oceano azul o que seria essa dose de pó... Verifiquei se tinha cigarros e sintonizei uma banda de mariachis modernaços. Olhei o espelho retrovisor e agradeci-lhe mentalmente os óculos escuros. Nunca teria comprado aquele modelo, mas ela tinha acertado em cheio. Geralmente acertava. Relembrei-lhe o cabelo em desordem calculada, a camisa branca que adorava sobre aquela pele bronzeada, até as calças rasgadas e os pés nus que adorava estender sobre o tablier. Olhei o lugar vazio. Acendi um cigarro, liguei o carro e depois de um derradeiro semicerrar dos olhos, arranquei. Talvez a encontrasse em San Diego. Ou pelo menos, a sua pedra tumular.

março 12, 2013

Súbitamente a vontade



Quando as palavras não ocorrem, surgem as imagens e aquele travo que algures guarda o seu sabor, um que saiba a anil e me faça perder num realismo só meu. E quando o momento for luminoso existirá um salto, uma velocidade oposta à pressa e à realidade, uma mudez onde o som seja apenas o meu. Quando as palavras não ocorrem, abrem-se janelas e procuram-se as portas de entrada e saída. Calam-se as pedras e os guindastes e só se ouve o vento e todas as formas de água. Até os beijos são esquecidos. Restam duas pegadas na areia, em espera. E da vontade far-se-á baunilha e canela. Como risos de crianças distraídas, enquanto a vida segue lá fora.

março 04, 2013

Roleta russa



Perdido na geometria dos contentores, encontro-me só neste cais de serpentes e mulheres sem amor. Para onde olhe, recebo lições de humildade e cuidado. Se quero estender os braços, a dormência impede-me. Se escolher atirar um beijo, sou esmurrado pelo escuro. Alinho divindades sem ordem aparente. Serão o meu socorro, a suprema hipocrisia neste momento aflito. Sou rodeado por existências que se alongaram demasiado e porque acredito em vértices, entrego o sistema nervoso como caução. Os dedos e as mãos que me moldam a cara e os ombros não têm face. Têm hálitos proibidos e sussurram pedidos assombrosos. No instante em que devo soltar-me, distendo os músculos e entrego-me. Sou um alvo e devo portar-me como tal.

Paradoxo



A gabardine solta-se da minha pele e alonga-se nas enchurradas que tenho de sentir, encharcando cada polígono do ser enquanto o espírito teimosamente se mantém enchuto. Venero as cidades, as quilométricas avenidas entre norte e sul, as luzes que sabem conceber galáxias, as pessoas arrumadas em caixas com janelas, as que se sentam ao balcão esperando a chávena fumegante ou apenas olhares que fogem, expectantes, tímidos na sua vergonha de encarnar a desonra. Gosto do fumo que esculpe cenários no meu interior, das silhuetas fugindo de si mesmas enquanto correm a abrigar-se. Entendo observar estes mundos como se fosse nomeado curador do emaranhado de ruas e corações que batem. Quando a chuva me desenha caminhos na face, deixo correr essas lágrimas do céu, adivinhando escolherem-me a pele como santuário. A certeza assalta-me nessas noites. Eu resisto, como se a vida dependesse de dúvidas e hipóteses. Depende sim, uma hera que sobe pelo tempo acima, sem se importar com o que se passa à sua volta.