setembro 09, 2013

Fatiando o orvalho

Dentro dessa gaveta, os novelos estão calados, misturando as cores com o mesmo empenho que se escondem dos visitantes inesperados. Tardam em construir um céu onde caibam, prolongando a dúvida de quanto medem ou que espaço ocupam. Como um areal, adiam contar todos os grãos de areia, pois a repetição mata e mói. E ainda assim, alimentam-se dela, e nela depositam os seus ovos e esperanças. Da outra margem, a que vêm ao longe ao princípio da manhã e antes da tarde cair, recolhem a imaginação de nunca lá chegar, como se a linha do horizonte não fosse feita de açucar. Lembram-se e repetem a lembrança, como se cada fio de recordação ficasse preso na porta enferrujada. Mordem pêssegos e molham a lã com os pingos de calor. E deixam-se ficar, enrolados, sem forma, na espera proverbial da nova madrugada, uma que lave e arraste o restolho, na purificação magnânime das certezas.

setembro 02, 2013

Aquela esquina desbotou o céu anil

A caneta, como as cartas, envergonham-me cada minuto, desfazendo a serenidade que anseio, aqui sentado, disforme por dentro e com os dentes amarelos de décadas. Descobri hoje que sou de carne e osso, mortal como todos e aprazado como quem preza cada dia, mesmo na consequência de ser o último. Já não escolho as palavras, deixei-me purista. Abraço agora a condição de medíocre como se amanuense não fosse um pretérito. Nas canções de outros, e porque sou incapaz de escrever as minhas, descubro cada centímetro de mim. Suspiro lentamente e respiro, quase transpiração, as horas enterradas pela fuligem dos ponteiros, lápides e degraus, passeios fora da agenda e cafés vazios depois do almoço. Aceito com solenidade a esquina onde uma velhinha vendia tremoços e pevides aos domingos, gente sem passar segunda vez, como a batota num jogo com um só jogador. No regresso, fechada a gaveta das mangas curtas, rebolavamos na garagem escurecida ou adormecíamos nas escadas do museu, certos que existiamos sem nós. na praia deserta avistava-se no mar a chuva que não tardava, e encharcava-me na doce carícia da transgressão. Faz-me falta purificar na areia molhada e sentir que amanhã, é apenas um quadrado de calendário que me trará o outra vez. Antes, muito antes de descobrir, que o calendário pode desprender-se da parede.

História completa da humanidade em fragmentos de volume

Somos vários,
agimos, perpendiculares,
existindo na essência de um não acontecimento.

Aos remorsos
chamamos vírgulas,
protegemos o imenso, guardado debaixo das unhas.

Reis e reinos
vegetam sob a nossa demora,
as violências desmoronam a capacidade de acreditar.

Traça-se uma ideia,
a perfeição,
medida e pesada como mercadoria.

Eis a nossa história,
bifurcada em ameias e pactos solares.

Seremos vários,
quando se acordarem os adormecidos.