dezembro 24, 2014

No céu e na terra e no tardar

Brinco sem a memória ou turvo de uma decisão imensa, máscara cobrindo-me a fealdade e ao mesmo tempo revelando, sou um tufo e as copas estão no alto onde os limites combinaram ser inatingíveis. O pensamento vai caindo em pedaços como uma parede de cal antiga, descascada pelo cansaço, indiferença de quem passa porque o olhar só tropeça no óbvio. A fadiga, a verdadeira que tolhe os ossos como aperta o espírito, escolheu-me para par, uma dança fria e calculista que se volteia a cada justificação como se a palavra fosse bengala. As minhas mãos já não apertam como antes. Estão áridas e não sabem como aquecer. Já não conhecem as letras e a cada frase, amolecem de tanto hesitar. Só a calma do silêncio lhes serve de afago, nós de solidão em novelos de fio áspero que se toca imaginando a pele sedosa de uma mulher que se oferece. O tempo jaz em cacos e a vontade desfraldada em farrapos são as notas trémulas de uma canção que tropeça às mãos do seu compositor, um fulano vago, cativo de luas e luzes distantes, incapaz de soletrar o que o coração dita. Quem me encontrar moribundo não me dê água nem sacramentos. Jogo com o meu fim, e a quem me receber do outro lado, entrego essa ousadia. Que a pese e analise demoradamente, e a registe nos livros veniais, como se o epitáfio fosse a notícia de um nascimento.

novembro 07, 2014

Fahrenheit

Desafiar intrusões
como te desafio em nenhum dia,
por te encontrar perdida
e não desejar picos de montanha
lá longe,
nesses lugares cativos
e inapropriados,
caminhadas depois da hora de adormecer
para chegar a algum altar
onde entrego algo de mim,
do meu interior,
algo que me faça falta
e que a vida reclame
para continuar a acordar-me.

Sinto o corpo afundado,
recortado na neve
e pesado como não sabia.

Entendo a reticência,
atiro sim aos rochedos
e ao grito das aves que não migram,
e espero,
espero muito,
pelos degelos
ou outra blasfémia qualquer
que me leve em turbilhão
e me desenhe em algum vale
de sossegos e palavras,
as bastantes,
só as bastantes,
porque não me interessam os porquês,
as razões
ou os perdões.

julho 16, 2014

Premonições

No piano que em cada dia se revela aquele, o de outras e afinal as mesmas, porque um coração não se engana apenas esconde de si mesmo, guardo as redenções e os bancos de jardim, vazios como o cais em noite de temporal, passos raros por caminhos de espinhos sem coroa nem beira, amparados pela cor da tristeza em tons de pedra preciosa. Refeito de dores que insistem ser antigas, olho a linha que separa hoje e a ausência de amanhã, como se cada jogo na prateleira fosse uma imaginação. E se a cada movimento fútil do planeta corresponder uma constelação ou um nome grego, ajoelho-me e ofereço o pescoço aos deuses. Rio alto, sabendo que os deuses não existem ou professam um sono demorado. Ao tom brusco da intemporalidade e esquecido de pianos e chuvas cruas, procuro uma cadeira que me responda os mistérios de um mundo próximo, ao mesmo tempo que me acalme as interjeições e os arremedos de poeta. Sentado, saberei o meu ponto cardeal, assim como o segundo exacto da minha morte. Ou de cada uma delas.

junho 25, 2014

Institucional

Começa à porta de casa. Quando há casa. Começa à beira do caminho. Porque há sempre caminho. Começa nos olhos de todos os dias, por onde nos movemos em negação e optimismo, o mesmo que acredita nos corvos só na porta ao lado. Como se a noite fosse sempre mais escura onde nos esquecemos de existir. Como se não houvesse sono suficiente para descansar a ingenuidade. Como se isso tudo só existe longe, onde se dizem amarguras com palavras desconhecidas. Como se a destruição parasse nas margens do rio. E sentado na margem de cá, porque há margens certas para estar sentado, olha-se o fumo do outro lado, nas fogueiras onde se engana a fome, nos incêndios onde se morre o dia seguinte. Existe um muro, ou uma parede, demasiado enegrecida para lhe julgar a diferença. Consegue-se ler, ou adivinhar, os contornos da palavra liberdade. Os traços suficientes. Não sei o que significa. Não compreendo se tem sinónimo. Parece-me o resultado de um humor requentado. Aquela pasta cinzenta que se deixa ferver numa frigideira apodrecida. Quente para a fome se rir um pouco menos. Quente para aquecer o corpo sem vida que serve de almofada. Nas ruas, sem ruído, passam enormes veículos escuros. Nas ruas com luzes escassas e grandes cartazes onde se diferencia. Onde se escala a espécie humana. Nas prateleiras dos supermercados, pegam-se caixas em troca do seu código de barras. Nos peitos escondendo seios verdadeiros, estão escritos nomes femininos que não se sabem dizer. Algum dicionário antigo chama-lhes nomes. São apenas esquecimentos escritos com letras. Não fazem qualquer sentido. Não são números. São escolas. Não se ouve nada nas escolas. Não há quadros pintados a giz. Não há janelas onde se pintam dias de sol. Não há sol. Os corredores são construídos com medidas impossíveis de lhes conhecer a última porta. As estradas continuam até onde não haja ninguém. Os edifícios levantam-se até o suicídio não precisar de bater no chão. Do pátio, apenas resta a rede de segurança. O último lugar para alguém se sentir seguro. Tenho sede. E não há água no regador.

junho 18, 2014

A rua que nunca mais acaba


Sem ontem ou antes, situo-me na periferia das recordações enquanto o eco me circula e detém. Dois pés movidos a sensações, porque cada momento é um quarteirão, coleccionando rumos em cromos desbotados que enchem mais algibeiras do que posso suportar. Pesam-me as almas, todas as que carrego, como mochilas desfiadas por onde vão caindo pequenos esboços de calendários sem datas. Tenho de parar, extenuado, apoiando-me num muro amigo que se ergue para mim. Deste lado, eu e a alvura do dia. Do lado de lá, as penumbras próprias das lápides desarrumadas.

A conta, por favor


Serpenteando por entre o que os anos empilharam sobre os tapetes que outrora foram meus, agora pertencem ao chão, não encontro qualquer fio de meada, nem gavetas vazias onde os esquecimentos guardem as relíquias. Temos mais do que somos. E não chegamos a ser nem o contorno, nem uma aresta afiada por um autómato que se guarda com um par de olhos, enquanto o par de braços está caído e o par de mãos é um amontoado de dedos crispados. Deixámos para trás a criança de brinquedo junto ao coração. Aquela que não sabia que todo o simples compõe-se de complicados. Evito os espelhos para não ver a tabela periódica de traços esmagados pelos dias iguais, cópias fiéis que insisto em pintar e comprar-lhes tempo em forma de moldura. Sou um museu de portas entreabertas onde o direito de admissão é decidido por um tribunal sem certezas.

junho 04, 2014

O outro lado, a mesma face


Estranho as hesitações que abrem as portas aos vampiros. Imagino que as promessas não entrem apenas pela caixa de correio, ou a cor do sangue não pode ser imaginada, nem o seu sabor ou a visão do que está por acontecer. Mas sei contar essas histórias. Conheço-as sem precisar de as viver, pois picam-me a pele ao pousar sobre a minha atenção. E sem acontecer, têm algo do corpo que a penumbra deixa adivinhar. Sei o seu contorno, visto-me da sua silhueta e comungo estados de tristeza e euforia no mesmo instante que respiro a sua intoxicação. E deixar-me-ia trespassar se pudesse ser em vez de sentir, se contrariasse as premissas e fosse o que não posso conseguir. Ser dois e apenas um. Como um conto de crianças, segredado através de uma porta. Entreaberta.

maio 30, 2014

Antes que o anoitecer seja outro algo


Chove dentro de mim, como se monções prolongassem as veias e enchessem as margens que me impedem de cair. Flutuando o desequilíbrio, julgaria misérias como misericórdias e começava um enorme soneto sem compreender o que significa melodia ou intenção. Por um caminho de ervas submersas e lírios altos, deixar-me-ia guiar por alguma estrela como se os astros soubessem o meu naufrágio. Então, a chuva dentro dos meus olhos aprenderia que o fragor não resulta da altura da onda ou da força da maré. E a tormenta saberia cadenciar o relâmpago pelo bater do meu coração.

No espelho vivem mentirosos e bajuladores


Insisto na geometria que me oblíqua na vontade e no torpor, razões fartas para me desvanecer e reassemblar de seguida, como se nada fosse, nem os caminhos rumassem a luzes ou aos potes de ouro marcados na íris. Movo-me em trajectos pequenos, medo de assumir as vontades ou apenas o peso da carapaça que me provoca arrastos e vómitos, agora que me vejo zoológico e refém de público e parafernálias que não são mais que documentos fora do cofre. Abro a janela da minha cela, olho para o chão, longínquo desta altura de céus, e entendo que ao mergulhar reviverei a sensação de atravessar a onda e saber onde está o outro lado. Na teoria dos restantes sábios, e de alguns ignorantes, conseguirei somente desfigurar o que já é monstruoso.

maio 22, 2014

Houston, nós somos o problema


Pontos cardeais e direcções sem dogma, cadeiras alinhadas e carreiros de gente em modo centopeia, vírgulas porque se quer perigar por decreto enquanto os becos se enchem e a semântica ocupa o lugar do alimento. As ruas transbordam de uma futilidade pegajosa, o espontâneo tem agora raízes e em cada floresta os troncos são amordaçados com medo. Nas prateleiras não faltam fatias de carne e em cada embalagem de manteiga reside o aconchego do moderno. As divindades perderam as teclas e o indicador procura incessantemente a redenção vestida de insatisfação. O suficiente e o demasiado foram despejados e os arrendatários são agora os donos.

maio 15, 2014

No sofrimento, até que a minha decisão nos separe


Cada campânula no lugar de cada chefe de estado, o anfiteatro repleto, assassinos, silhuetas esboçando sorrisos, sempre a ocasião acima de suspeitas, braços de punho fácil, seja na mesa ou no decreto, indicadores genéticos e percentagens em pasta de papel como se algo fosse terminar hoje. Em cada lugar, correntes e cadeados como conforto. O burburinho é audível enquanto controlo um semáforo algures no México. Três vítimas, antes do meio dia. Pronto para a videoconferência, apago o cigarro na parede acrescentando arte à sujidade. Sorrio para a câmara enquanto determino o abate da terceira fila a partir de baixo. Gosto de me sentir bem...

maio 14, 2014

A praia desapareceu


Nesse momento, a onda tomou-lhe a mão e levou-a dali. Sabia que as recordações e os lamentos guardados no seu coração, seriam o antídoto para tanto sal. Levaria os remoinhos a vê-la e dir-lhes-ia que era sua, como se uma mentira em alto mar fosse inofensiva. Enfeitaria os cabelos com quantas estrelas pudesse apanhar, rompendo as constelações num logro que só seria visto por olhos ágeis e moribundos. Quando o vento se escondesse, dançaria valsas e arrastaria a cauda do vestido de algas como se o salão fosse uma maré. Por ciúme, arrastaria o braço inerte até ao fundo, onde os luares não encontram as almas. E num estremunho de amor, daqueles verdadeiros que só as histórias contam, correu sem fôlego e pousou-a na areia, com a luz do farol varrendo a carícia, uma gota de sal sobre a face adormecida, sinal indelével de que a paixão pode apenas ser.

Nos poetas guardam-se os cuidados


Adivinhar o que perturba, como se cada halo fosse de água, manhã dentro, manhã fora, salpicos de certezas fugindo à casual indiferença de cada passo de rua, silhuetas esbatidas nas montras e os telhados observando as histórias como se as fossem contar ao serão. Protejo a ousadia e pela espada enfrentaria a anónima forma de julgar, os olhos que espreitam a partida e não a compreendem, mesmo se a verdade se estampe nos rostos. A estação coberta de escuro ainda alberga os últimos fios de sussurro e intenção. Serão os últimos pelo tempo que se esfumar depois da partida. E depois, mesmo depois de desaparecer na primeira curva, fica sentada no banco mais afastado da porta, a vontade de chorar. Deixo-a lá, assim saberei onde a encontrar.

abril 28, 2014

Testamento


Sigo na vertigem de todos os passados que me sulcaram a pele. Não reconheço as rugas nem os risos abafados que o guarda-fatos esconde, olho por entre as lâminas de bruma e vejo ao longe o barco que me assombra os domingos, desta vez quieto, então saltitante e de brilho no costado. Quero dominar o que me lembro, manter as memórias debaixo da língua, vestir-me de recordações e atirar-me ao mar como quem se deita num sarcófago. Quero continuar a boiar, ser submissão em berço de ondas, passar os dedos na água e encontrar o fio de prumo na horizontal. Por quereres impossíveis, estou agora sentado num banco de jardim, muito direito de costas em espaldar, na atenção de uma borboleta ou fazendo-me tronco de árvore. Olho em frente evadindo todo o periférico que me pertence. Sinto na essência de me esquecer dos cinco sentidos. Sou apenas o que a pele me transmite. A que me cobre a vergonha e o amor. Levanto o olhar e espero a chuva. A eterna forma de me cobrir de pureza e ao mesmo tempo, encharcado, repetir as luxúrias ternas do meu esquecimento. Aos primeiros pingos, fecho os olhos e deixo-me trespassar. Já não sou eu. Não conheço em que me tornei. Ou se, ainda existo.

abril 16, 2014

Quieto


Enquanto o dia se senta e conta histórias sem ninguém para as ouvir, as multidões, porque existem muitas na medida de cada solitário deseja outro solitário, enfrentam a fatalidade do caminho carregando a culpa a tiracolo porque é mais fácil de largar. Ao longe, o rio saboreia o seu reinado, absoluto num leito onde não conjuga, ferido no seu egoísmo e imune na antecipação da foz. Um barco ou um cadáver a boiar são o mesmo divagar nesse correr manso onde cada um, multidão ou náufrago, entende como espera e usa como moeda de troca. Uma cadeira, uma absolvição, um mito deitado num altar, apodrecendo à medida que o dia se levanta e se deita, depois de olhar a margem deserta.

abril 15, 2014

Aviso amarelo


Nesse lugar da mente onde se guardam os segredos escuros, aqueles que saem de noite quando a escuridão se despe e a terra esfria sem se mostrar morna ou arrependida, existe uma gaveta onde os papéis têm cor própria e as letras compõem as frases indispensáveis para serem outros os destinatários das minhas cartas. É um pormenor sem importância, como o papel esquecido na gaveta, porque há outros papéis e outras gavetas, longe, inacessíveis, perdidas na pressa de ninguém e no vagar dos apressados que não conhecem a pressa, a que magoa ou a que molda o desespero dos assassinos. Após uma pausa há um porém, na certeza ou no porquê de serem os pormenores os remos da vida ou as velas do mundo, mesmo se redondo, mesmo sem forma definida ou definição construída sem conclusões. Nas gavetas, os pormenores misturam-se com todas as quinquilharias que se vão guardando. E quando damos por isso, um pormenor é apenas uma quinquilharia.

Deixei a esperança no bengaleiro


Submerso e mesmo assim, liberto de constrangimentos nesse ideal de louros e transfusões de sangue, como se fosse açucar ou moeda de troca na ansiedade de melhor ou talvez fugie de um sem abrigo, por lembrar o caminho ou o fim dele, muro tapando o ângulo de visão e o salto que alcança a pedra tumular ou o jardim do outro lado da vida de alguém. Os espelhos ferem como as janelas que antecipam varandas onde se expõe o tronco seminu da atracção obrigatória. Fazes-me cair, esperar a rebentação sobre o meu frágil escalpe, remar a areia até onde ninguém me vê e só tu, que sabes o caminho de volta, e talvez te tenhas esquecido. Sobrevoo a multidão enquanto deitado no passeio, tarde que se ri e as horas passando rente às montras. O logro e a calçada fria sob o meu corpo, mesmo se nem importa que se tenha corpo. Um dia, uma altura presa em algum telhado, roçava o sobretudo pelo chão, apertava os atacadores dos sapatos herdados e julgava esse telhado como planeta. Sempre soube do meu erro.

abril 10, 2014

Da oração sómente os calibres


Brutalidades sem fim à vista, blocos de intenções regados a sumo de lilases, a verdade cortada como vítima e os corpos caindo de qualquer céu perdido na planície, bem no cimo da virtude ou quieto inferno sentado ao sol esperando a bonança passar. Ver é amor sem vogais, apenas um ronronar onde amigo é insecto e incesto e todo o chocolate que cobrir o oceano Índico, aquele resto de maré que molha os degraus do templo, bem a tempo da última pira incendiar e esculpir o pôr do sol. Não quero conhecer as divindades, bastam-me os pecadores acocorados numa oração pedindo impossíveis em forma de preciosidades indiferentes. O tempo ordena a divisão, e a vida, parca unidade de troca, dissolve-se em ponteiros e foge do relógio.

abril 04, 2014

Licantropia piedosa


Enquanto os lobos bebem as últimas chuvas da manhã, regressam os rumores de multidões desaparecidas, pegadas que deixam de existir, nomes sem chamamento na mudez da ignorância. No topo da colina ainda se erguem as colunas da passagem, porta ou altar não se sabe, os fiapos e as manchas de sangue seco não respondem e a dúvida já percorre o chão em forma de ervas daninhas. Como fiéis, os lobos olham o céu buscando a neve final, sinal divino do caminho repetido da mudança. Nós, os que escrevemos humanos, deitados e ocultos sob pedras descomunais, somos afinal de quatro patas, óbvia encarnação de algo antigo que se jura antes de entender.

abril 01, 2014

Despertares antes do sono


Sorvos em regatos deixados no seu sítio, como se o esquecimento fosse um mapa rabiscado. Não te peço horas nem metades de dia, apenas que esperes por mim, sem pausas, com o tempo como margem e o leito feito testemunha. No saber que se encarna em mim, sei as águas e as chuvas como videntes do meu quieto estar. Guardam-me a palidez dos invernos que respiram pelo meus poros. Passam por detrás dos meus olhos um adro de igreja, barcos submersos de remos flutuantes, folhas orvalhadas escudando os muros desbotados das traseiras onde o fio de luz da oficina de alfaiate enfrenta o tarde e o cedo. Na quietude tecem-se os linhos do coração. E mesmo sem te olhar, sem entender a tua falta ou o teu nome apagado, regresso ao limiar dos portões enferrujados que sabem ser a espera uma forma de cura. A cura onde os males repousam e sorriem como se fossem doces.

março 28, 2014

Os jurados já decidiram?


A sentença foi pintada a cores, encontradas a monte num éden de entulho e brilho, na verdade um dejecto de corte fino mutilado a golpes de indiferença. O tempo tem o valor da fruta do fundo do caixote, norma de sentido único repenicada a ósculos de corte cirúrgico. Ao percorrer o longo corredor dos condenados, a palidez dos rostos cheira aos desinfectantes das noites de emigração clandestina rumo ao cintilante dos altares, onde a religião é insonsa ou oculta. As palavras desintegram-se contra os muros altos da indiferença. E são tantos os quilómetros de baldios murados.

março 24, 2014

Espera por nós, João


Numa correria desenfreada pisas o chão de calçada, rua abaixo, vida acima, onde nos procuramos mutuamente, tu a mil à hora, eu nas palavras que escreves e berras, ambos na vontade de dias mais claros e de intenções puras. Gostava de dizer que fazes falta, talvez porque fazes mesmo falta e por não mereceres frases vãs. Gostava de beber aquela cerveja e ouvir a tua gargalhada rouca, pelo menos mais uma vez. Enquanto corres à nossa frente, à minha frente, insisto-me em ouvir-te nas tuas canções, grãos de areia que ao escorregar nunca esvaziarão a palma da mão. Não sei o depois, apenas te imagino braços no ar, punhos cerrados, peito ao vento e cara às balas, porque sei que serás um sempre e um nunca mais. Espera por nós, João, um dia essa cerveja ainda ecoará a tua voz.

março 12, 2014

Sejam e não sejam


Curtas metragens anunciando desastres cuja naturalidade só poderá ser comprovada em dias de sol, ou em livros antigos enterrados em cemitérios de Providence. Com esta premissa, pressinto as margens do Volga assentes num deserto mexicano, como se cada candidato a divindade fosse na realidade um saltimbanco cansado de se enlamear de terra em terra, professando o desejo da decisão ou apenas o de sentir-se enxuto. A dualidade é coisa séria, pertencer ou obliterar, avançar ou regredir até pontos sem retorno, meias medidas que tanto podem significar barris de cereais ao vento como anciãos de cócoras observando a velhice na terra batida. A escolha é indiferente, as direcções partem sempre de cruzes pintadas no chão, o mar, esse cúmplice, estará, como sempre, à espreita e à espera, farol molhado semicerrando os olhos rumo ao areal suspirando pela falésia. Como todas as coisas, se coisa é uma coisa, alinham-se as dúvidas e hipóteses em forma de tempo, faz-se de cada minuto um arrumo e de cada hora uma gaveta, respeitam-se as convenções por razões raramente desenhadas, e todo o papel, gravata ou corte de cabelo é elevado à potência, ruralidade de um número primo, factorizado porque sim. Nas canções, redigem-se as leis do mundo, este em vez de outro qualquer. O retrato da ingerência chamada vida, são as linhas que escrevo, testamento autenticado pela vírgula que todo o estado alterado contém. Nas entrelinhas, escondem-se os arco-íris que desconhecem o ouro, mas antecipam as cabriolas dos planetas. E cada ponto não será final. Os inícios vendem-se em cada esquina, e por cada um, oferece-se a palma da mão.