abril 28, 2014

Testamento


Sigo na vertigem de todos os passados que me sulcaram a pele. Não reconheço as rugas nem os risos abafados que o guarda-fatos esconde, olho por entre as lâminas de bruma e vejo ao longe o barco que me assombra os domingos, desta vez quieto, então saltitante e de brilho no costado. Quero dominar o que me lembro, manter as memórias debaixo da língua, vestir-me de recordações e atirar-me ao mar como quem se deita num sarcófago. Quero continuar a boiar, ser submissão em berço de ondas, passar os dedos na água e encontrar o fio de prumo na horizontal. Por quereres impossíveis, estou agora sentado num banco de jardim, muito direito de costas em espaldar, na atenção de uma borboleta ou fazendo-me tronco de árvore. Olho em frente evadindo todo o periférico que me pertence. Sinto na essência de me esquecer dos cinco sentidos. Sou apenas o que a pele me transmite. A que me cobre a vergonha e o amor. Levanto o olhar e espero a chuva. A eterna forma de me cobrir de pureza e ao mesmo tempo, encharcado, repetir as luxúrias ternas do meu esquecimento. Aos primeiros pingos, fecho os olhos e deixo-me trespassar. Já não sou eu. Não conheço em que me tornei. Ou se, ainda existo.

abril 16, 2014

Quieto


Enquanto o dia se senta e conta histórias sem ninguém para as ouvir, as multidões, porque existem muitas na medida de cada solitário deseja outro solitário, enfrentam a fatalidade do caminho carregando a culpa a tiracolo porque é mais fácil de largar. Ao longe, o rio saboreia o seu reinado, absoluto num leito onde não conjuga, ferido no seu egoísmo e imune na antecipação da foz. Um barco ou um cadáver a boiar são o mesmo divagar nesse correr manso onde cada um, multidão ou náufrago, entende como espera e usa como moeda de troca. Uma cadeira, uma absolvição, um mito deitado num altar, apodrecendo à medida que o dia se levanta e se deita, depois de olhar a margem deserta.

abril 15, 2014

Aviso amarelo


Nesse lugar da mente onde se guardam os segredos escuros, aqueles que saem de noite quando a escuridão se despe e a terra esfria sem se mostrar morna ou arrependida, existe uma gaveta onde os papéis têm cor própria e as letras compõem as frases indispensáveis para serem outros os destinatários das minhas cartas. É um pormenor sem importância, como o papel esquecido na gaveta, porque há outros papéis e outras gavetas, longe, inacessíveis, perdidas na pressa de ninguém e no vagar dos apressados que não conhecem a pressa, a que magoa ou a que molda o desespero dos assassinos. Após uma pausa há um porém, na certeza ou no porquê de serem os pormenores os remos da vida ou as velas do mundo, mesmo se redondo, mesmo sem forma definida ou definição construída sem conclusões. Nas gavetas, os pormenores misturam-se com todas as quinquilharias que se vão guardando. E quando damos por isso, um pormenor é apenas uma quinquilharia.

Deixei a esperança no bengaleiro


Submerso e mesmo assim, liberto de constrangimentos nesse ideal de louros e transfusões de sangue, como se fosse açucar ou moeda de troca na ansiedade de melhor ou talvez fugie de um sem abrigo, por lembrar o caminho ou o fim dele, muro tapando o ângulo de visão e o salto que alcança a pedra tumular ou o jardim do outro lado da vida de alguém. Os espelhos ferem como as janelas que antecipam varandas onde se expõe o tronco seminu da atracção obrigatória. Fazes-me cair, esperar a rebentação sobre o meu frágil escalpe, remar a areia até onde ninguém me vê e só tu, que sabes o caminho de volta, e talvez te tenhas esquecido. Sobrevoo a multidão enquanto deitado no passeio, tarde que se ri e as horas passando rente às montras. O logro e a calçada fria sob o meu corpo, mesmo se nem importa que se tenha corpo. Um dia, uma altura presa em algum telhado, roçava o sobretudo pelo chão, apertava os atacadores dos sapatos herdados e julgava esse telhado como planeta. Sempre soube do meu erro.

abril 10, 2014

Da oração sómente os calibres


Brutalidades sem fim à vista, blocos de intenções regados a sumo de lilases, a verdade cortada como vítima e os corpos caindo de qualquer céu perdido na planície, bem no cimo da virtude ou quieto inferno sentado ao sol esperando a bonança passar. Ver é amor sem vogais, apenas um ronronar onde amigo é insecto e incesto e todo o chocolate que cobrir o oceano Índico, aquele resto de maré que molha os degraus do templo, bem a tempo da última pira incendiar e esculpir o pôr do sol. Não quero conhecer as divindades, bastam-me os pecadores acocorados numa oração pedindo impossíveis em forma de preciosidades indiferentes. O tempo ordena a divisão, e a vida, parca unidade de troca, dissolve-se em ponteiros e foge do relógio.

abril 04, 2014

Licantropia piedosa


Enquanto os lobos bebem as últimas chuvas da manhã, regressam os rumores de multidões desaparecidas, pegadas que deixam de existir, nomes sem chamamento na mudez da ignorância. No topo da colina ainda se erguem as colunas da passagem, porta ou altar não se sabe, os fiapos e as manchas de sangue seco não respondem e a dúvida já percorre o chão em forma de ervas daninhas. Como fiéis, os lobos olham o céu buscando a neve final, sinal divino do caminho repetido da mudança. Nós, os que escrevemos humanos, deitados e ocultos sob pedras descomunais, somos afinal de quatro patas, óbvia encarnação de algo antigo que se jura antes de entender.

abril 01, 2014

Despertares antes do sono


Sorvos em regatos deixados no seu sítio, como se o esquecimento fosse um mapa rabiscado. Não te peço horas nem metades de dia, apenas que esperes por mim, sem pausas, com o tempo como margem e o leito feito testemunha. No saber que se encarna em mim, sei as águas e as chuvas como videntes do meu quieto estar. Guardam-me a palidez dos invernos que respiram pelo meus poros. Passam por detrás dos meus olhos um adro de igreja, barcos submersos de remos flutuantes, folhas orvalhadas escudando os muros desbotados das traseiras onde o fio de luz da oficina de alfaiate enfrenta o tarde e o cedo. Na quietude tecem-se os linhos do coração. E mesmo sem te olhar, sem entender a tua falta ou o teu nome apagado, regresso ao limiar dos portões enferrujados que sabem ser a espera uma forma de cura. A cura onde os males repousam e sorriem como se fossem doces.