maio 30, 2014

Antes que o anoitecer seja outro algo


Chove dentro de mim, como se monções prolongassem as veias e enchessem as margens que me impedem de cair. Flutuando o desequilíbrio, julgaria misérias como misericórdias e começava um enorme soneto sem compreender o que significa melodia ou intenção. Por um caminho de ervas submersas e lírios altos, deixar-me-ia guiar por alguma estrela como se os astros soubessem o meu naufrágio. Então, a chuva dentro dos meus olhos aprenderia que o fragor não resulta da altura da onda ou da força da maré. E a tormenta saberia cadenciar o relâmpago pelo bater do meu coração.

No espelho vivem mentirosos e bajuladores


Insisto na geometria que me oblíqua na vontade e no torpor, razões fartas para me desvanecer e reassemblar de seguida, como se nada fosse, nem os caminhos rumassem a luzes ou aos potes de ouro marcados na íris. Movo-me em trajectos pequenos, medo de assumir as vontades ou apenas o peso da carapaça que me provoca arrastos e vómitos, agora que me vejo zoológico e refém de público e parafernálias que não são mais que documentos fora do cofre. Abro a janela da minha cela, olho para o chão, longínquo desta altura de céus, e entendo que ao mergulhar reviverei a sensação de atravessar a onda e saber onde está o outro lado. Na teoria dos restantes sábios, e de alguns ignorantes, conseguirei somente desfigurar o que já é monstruoso.

maio 22, 2014

Houston, nós somos o problema


Pontos cardeais e direcções sem dogma, cadeiras alinhadas e carreiros de gente em modo centopeia, vírgulas porque se quer perigar por decreto enquanto os becos se enchem e a semântica ocupa o lugar do alimento. As ruas transbordam de uma futilidade pegajosa, o espontâneo tem agora raízes e em cada floresta os troncos são amordaçados com medo. Nas prateleiras não faltam fatias de carne e em cada embalagem de manteiga reside o aconchego do moderno. As divindades perderam as teclas e o indicador procura incessantemente a redenção vestida de insatisfação. O suficiente e o demasiado foram despejados e os arrendatários são agora os donos.

maio 15, 2014

No sofrimento, até que a minha decisão nos separe


Cada campânula no lugar de cada chefe de estado, o anfiteatro repleto, assassinos, silhuetas esboçando sorrisos, sempre a ocasião acima de suspeitas, braços de punho fácil, seja na mesa ou no decreto, indicadores genéticos e percentagens em pasta de papel como se algo fosse terminar hoje. Em cada lugar, correntes e cadeados como conforto. O burburinho é audível enquanto controlo um semáforo algures no México. Três vítimas, antes do meio dia. Pronto para a videoconferência, apago o cigarro na parede acrescentando arte à sujidade. Sorrio para a câmara enquanto determino o abate da terceira fila a partir de baixo. Gosto de me sentir bem...

maio 14, 2014

A praia desapareceu


Nesse momento, a onda tomou-lhe a mão e levou-a dali. Sabia que as recordações e os lamentos guardados no seu coração, seriam o antídoto para tanto sal. Levaria os remoinhos a vê-la e dir-lhes-ia que era sua, como se uma mentira em alto mar fosse inofensiva. Enfeitaria os cabelos com quantas estrelas pudesse apanhar, rompendo as constelações num logro que só seria visto por olhos ágeis e moribundos. Quando o vento se escondesse, dançaria valsas e arrastaria a cauda do vestido de algas como se o salão fosse uma maré. Por ciúme, arrastaria o braço inerte até ao fundo, onde os luares não encontram as almas. E num estremunho de amor, daqueles verdadeiros que só as histórias contam, correu sem fôlego e pousou-a na areia, com a luz do farol varrendo a carícia, uma gota de sal sobre a face adormecida, sinal indelével de que a paixão pode apenas ser.

Nos poetas guardam-se os cuidados


Adivinhar o que perturba, como se cada halo fosse de água, manhã dentro, manhã fora, salpicos de certezas fugindo à casual indiferença de cada passo de rua, silhuetas esbatidas nas montras e os telhados observando as histórias como se as fossem contar ao serão. Protejo a ousadia e pela espada enfrentaria a anónima forma de julgar, os olhos que espreitam a partida e não a compreendem, mesmo se a verdade se estampe nos rostos. A estação coberta de escuro ainda alberga os últimos fios de sussurro e intenção. Serão os últimos pelo tempo que se esfumar depois da partida. E depois, mesmo depois de desaparecer na primeira curva, fica sentada no banco mais afastado da porta, a vontade de chorar. Deixo-a lá, assim saberei onde a encontrar.