dezembro 24, 2014

No céu e na terra e no tardar

Brinco sem a memória ou turvo de uma decisão imensa, máscara cobrindo-me a fealdade e ao mesmo tempo revelando, sou um tufo e as copas estão no alto onde os limites combinaram ser inatingíveis. O pensamento vai caindo em pedaços como uma parede de cal antiga, descascada pelo cansaço, indiferença de quem passa porque o olhar só tropeça no óbvio. A fadiga, a verdadeira que tolhe os ossos como aperta o espírito, escolheu-me para par, uma dança fria e calculista que se volteia a cada justificação como se a palavra fosse bengala. As minhas mãos já não apertam como antes. Estão áridas e não sabem como aquecer. Já não conhecem as letras e a cada frase, amolecem de tanto hesitar. Só a calma do silêncio lhes serve de afago, nós de solidão em novelos de fio áspero que se toca imaginando a pele sedosa de uma mulher que se oferece. O tempo jaz em cacos e a vontade desfraldada em farrapos são as notas trémulas de uma canção que tropeça às mãos do seu compositor, um fulano vago, cativo de luas e luzes distantes, incapaz de soletrar o que o coração dita. Quem me encontrar moribundo não me dê água nem sacramentos. Jogo com o meu fim, e a quem me receber do outro lado, entrego essa ousadia. Que a pese e analise demoradamente, e a registe nos livros veniais, como se o epitáfio fosse a notícia de um nascimento.