outubro 07, 2015

No limiar da floresta não há luzes


Caminho ladeado por azuis e cinzentos, muros e distâncias largas onde se escoam visões e se prendem dúvidas e hesitações. Neste fosso, as ilusões têm a forma de peixes como se os vermelhos e os lodosos fossem irmãos unidos de uma gestação enganosa ou, apenas, porque a natureza decidiu mostrar que a vontade não tem lugar neste remoinho de geometrias sem graduação humana. Eis a atracção pelo vazio, esse bocado de mundo árido que a sede não verga nem polui. E nessa cave imunda, luminosa em dias de marcados pela hora de acordar, os vasos dão guarida a planos de vida sem pressa de chegar a velho. Talvez por isso, o vento é a forma perfeita de entender o lugar exacto das coisas.

setembro 22, 2015

Prolongando a travessia da ponte


Eu não quero que seja fácil. Não quero o sorriso sem o desejo. Não quero o sim sem as dúvidas, o caminho sem os enganos. Não quero saber sem procurar, o sabor sem a antecipação, preciso de cada véu sem forçar os minutos de cada suspiro.

setembro 07, 2015

Demasiado tempo

Se o tempo significar objectos perdidos ou vontades sem significado, então as consequências serão dirigíveis à solta povoando os céus de roteiros extraviados, apenas porque a razão das coisas foi abalada e ameaça desmoronar cada centímetro de lógica que existe dentro de cada um de nós.

maio 16, 2015

Por detrás das cortinas que já não existem


Ao eleger as decisões mais ousadas, pego no prato e no copo, astros de um sideral entre paredes e porta entreaberta, e submeto-me à cidadela que roda ao vagar dos meus intentos e pressas obtusas. O volteio, esse trote ameno que antecede a entrega, é o caminho que os fiapos do amor descrevem, essas pedrinhas coloridas que antigamente sabiam os destinos de todas as encruzilhadas, mesmo se os muros fossem altos e as árvores de pomar se mostrassem despidas. Os passos eram maiores, enormes como as marés altas salpicando o topo das escarpas laminadas, os dedos esticavam-se abertos na ânsia de tocar verões, os olhos procuravam pontos nos areais ou apenas carreiros indicando onde caíam os arco-íris. As cores eram sempre anil. Agora desmaiam. Ao pousar o prato e copo, quieto esse barulho de vidro contra cerâmica, olho pela janela descobrindo que sou janela, levando para a cama o que lá fora me deixa ver.

janeiro 06, 2015

Sintoma

Romper os laços olhados como cordas, esfarrapar os lenços e cobrir-me de folhas amarelas num canto desse jardim, esquecido como no dia em que deixei cair a porta e me tornei amargo e avaro, repetidor de palavras e estripador de sílabas, esquecido dos caminhos do amor, das suas paragens e das árvores que lhe prometem sombra ou abrigo, como se os beijos precisassem de albergue, frutas maduras sem gesto de colheita ou arrependimento.